A primavera Marcelista

Gonçalo Ferrão 

Primavera Marcelista foi o epíteto historicamente atribuído ao período que vai de setembro de 1968 (depois da famosa queda da cadeira de Oliveira Salazar, seguida do consequente acidente vascular cerebral), até 1970, protagonizada pelo então designado interinamente presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano.

Consciente que o mundo não parava a sua evolução natural num galopante avanço social, económico e político, desde o pós-guerra, Marcelo Caetano, não se esquivou a uma certa forma de liberalização do regime, numa não disfarçada, progressão na continuidade.

Marcelo sabia que o país se encontrava pressionado na sua orientação política à data, principalmente na sua política colonial, por todos os restantes países da Europa a quem se juntava os Estados Unidos.

Desde a implantação do Estado Novo e da ditadura, com a constituição de 33, reforçando a ditadura resultante do golpe militar de 1926, esta ganhava uma forma funcionalista, com diferenças não menos atrozes para as pessoas que as ditaduras pró capitalistas da maioria desses países, incluindo as autocracias socialistas do grupo de Leste.

Os ventos mudavam e Marcelo Caetano reconhecia que, mais tarde ou cedo, enfrentaria a oposição democrática, como também a oposição de muitos comparsas do regime, ávidos por darem largas às suas ganâncias capitalistas, sempre e até então em forma latente.

Hoje a “Primavera Marcelista” – do Rebelo de Sousa – nunca disfarçou a farsa de democrata e a colagem a um pertenço padrinho, de quem também nunca desmentiu categoricamente a ligação divina de “parentesco”. Não representa um cenário muito diferente de mentalidade, onde as semelhanças, mesmo contando com a atualização dos tempos, são mais que meras coincidências, ou casualidades do nome.

Caetano vislumbrou que a comunicação e a força de uma televisão, com pouco mais de dez anos de existência, era uma arma e uma aliada para levar a bom porto a sua mensagem, essencialmente dirigida a uma classe média que demorava a despontar.

Da mesma forma, o Rebelo de Sousa cedo percebeu a força da comunicação social e o culto da imagem, para levar a mensagem e o seu passeio eleitoral à Presidência da República, como figura envolvente, dos afetos, culto, inteligente…, enfim, um “bom rapaz”.

Desde o dia da sua tomada de posse, com todo o «show» organizado até esta viagem a Moçambique, Marcelo Rebelo de Sousa sabe que comunicar é uma das formas de agradar – enganar – os menos precauciosos dos portugueses e das portuguesas.

Ambos chegam ao poder com idades idênticas e o Rebelo de Sousa nunca despiu a pele de plagiador do seu homónimo. Até na sua tese de doutoramento em 84. Tal como Caetano, o seu passado de juventude está ligado aos movimentos e causas mais à direita ou mesmo mais reacionários, aqui e acolá com descarrilamentos de «enfant terrible», numa roupagem de liberal na conveniência de um discurso pseudo democrático, mas sempre alinhado com o «status quo» do poder em vigor.

No passado dia 25 de Abril, para os mais atentos, esta máscara de “bom rapaz” caiu em Marcelo Rebelo de Sousa.

Apelou à unidade no essencial, sem negar “a riqueza do confronto democrático, em que os governos aplicam as suas ideias e as oposições robustecem as suas alternativas”. Mais adiante “quem se pretenda alternativa, de um lado ou de outro, demonstre em permanência a competência para tanto”. E ainda “estes tempos não são fáceis” nem “ na incerteza quanto ao crescimento” nem “na evolução económica recente” que exige “permanente atenção às previsões e seus reflexos financeiros”, avisando ser preferível “a ratificação de perspetivas do que a negação dos factos”, não sem antes ter vincado “Portugal não pode nem deve continuar a viver sistematicamente em campanha eleitoral.” Antes “exige estabilidade política, crucial para a estabilidade económica e social. O estar adquirida, finalmente, essa estabilidade é um sinal de pacificação democrática que deve reconfortar”.

Este discurso teve, em vários momentos, a literal colagem ao discurso de Marcelo Caetano, após a sua efetiva tomada de posse como Presidente do Conselho de Ministros, em março de 1969, onde também apela: à unidade nacional, realçando que o confronto de ideias não deverá nunca passar pelo confronto com quem governa; onde avisa veementemente que quem pretenda alternativa, deverá antes de mais demonstrar humildade perante a lei e a ordem instituída e demonstrar a sua competência para contribuir para o bem da Nação.

Em 1973, quando da crise do petróleo, alertou que Portugal não poderia viver constantemente sob a ameaça daqueles que o queriam escrutinar, e a pacificação do país era urgente para o bem-estar social das famílias que aceitavam os seus desígnios. Alertava ainda para tempos difíceis e para o fim das “vacas gordas”.

Dista do discurso de 1969 de Caetano, para o de 2016, de Marcelo Rebelo de Sousa, 48 anos. Tantos quantos durou a ditadura em Portugal. Coincidência ou não o discurso de 69 animou as hostes mais liberais de então. Coincidência ou não, este discurso de 2016 empolgou hostes que se pretendem democráticas e de esquerda. Coincidência ou nem tanto, Marcelo Rebelo de Sousa perpetrou uma estratégia para o seu mandato de assumida conversa mole a uma média e pequena burguesia, ainda a ressentir-se das feridas dos últimos quatro anos de uma governação ultra liberalista da direita de onde é oriundo. Caetano chamava-lhe “conversas em família”, Rebelo de Sousa chama-lhe “contactos de grande proximidade afetiva”.

Povo de Portugal, Uni-vos, pois a luta continua!


Imagem: RJ – Hypnos tv. Alguns direitos reservados.

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