A luta que falta fazer

Rafael Boulair

A organização, a efervescência contestatária da luta nas universidades precisa de ser retomada.
Há umas semanas, o Bloco deu mais um passo a caminho da maioridade. Os seus dezassete anos foram celebrados com um comício na Voz do Operário. No seu discurso, Francisco Louçã apontou:

«Envenenado pelas praxes, por Bolonha e pela semsaboria, o movimento estudantil ainda não reapareceu. É a luta que conta.»

O movimento estudantil, de facto, tem sido o movimento social mais ausente das lutas dos últimos anos. A estratégia da despolitização e neutralização da juventude venceu e a vaga de emigração fez o resto. Impediu que a cólera dos jovens se mostrasse com mais força. Uma força que, no entanto, existe e resiste à lavagem ideológica a que o neoliberalismo sujeitou uma geração inteira. Passado o tempo dos contratos sociais, a apatia e a resignação não conseguiram empatar a vontade de combate político-social.

À escala mundial, vimos explodir protestos dos jovens com invejável e impressionante envergadura, desde a revolta de Hong Kong em 2014 ao 15-M em Espanha e a movimentos mais alargados com uma forte participação jovem (caso das Primaveras Árabes e da própria Nuit Debout). Em Portugal, a juventude, tão preocupada com o futuro e a ausência de luz ao fundo do túnel saiu à rua na manifestação de 12 de março, cantou com os Deolinda e com quantos partilham a sua condição de precários e participou nas manifestações do Que Se Lixe A Troika.

Demasiado dispersa, desorganizada, sem futuro, vivendo num país que só lhe oferece desemprego, impedida de estudar, a sua voz não se fez suficientemente ouvir, faltando o seu contributo para combates mais amplos.

A organização, a efervescência contestatária da luta nas universidades precisa de ser retomada. É preciso voltar a encher as AGs. Para tal, o movimento estudantil precisa de uma agenda própria para além das reivindicações transversais e intergeracionais. Um vetor dessa agenda que me parece fulcral é o surgimento de um movimento pelo fim das propinas, o que permitirá passar da periclitante e desconfortável situação de defensiva a um quadro ofensivo.

Os próximos tempos serão marcados por uma tentativa de fazer esquecer os duros anos do austericídio: Costa sonha secretamente e Marcelo tenta despudoradamente reconstruir um pacto social que permita a adesão das classes populares ao projeto político da burguesia, recuperada que está do abalo de 2008. Mais uma vez, o papel da juventude será essencial para lhes gorar os planos. Pode ser um bico-de-obra, mas pôr novamente de pé o movimento estudantil é, certamente, uma tarefa fundamental que determinará o futuro da guerra de classes.


Imagem: Foto de Paulete Matos.

Anúncios