Os claudicantes

Luís Fazenda

Podemos olhar incrédulos para aqueles que tiveram uma votação na casa de 0% e, no entanto, clamam aos quatro ventos que a solução de governo é nem menos, nem mais, o que defendiam.

Até mesmo para um cérebro generoso a pretensão que exibem parece megalómana. Desde logo, percebe-se que a sua candidatura não inspirou confiança, nem pelos candidatos nem pela ideia da coisa. O mesmo devem ter pensado os próprios quando dissolveram, em menos de nada, o veículo utilizado para ir às eleições. O mesmo devem ter pensado muitos dos seus apoiantes, que já estavam noutra na véspera do impacto.

Quanto à vitória “moral” que apregoam, para continuarem a cirandar nos media com o mesmo ar grave e expedito, não passa de fraude política.

As esquerdas viabilizaram um governo minoritário do PS e fizeram um acordo parlamentar conjuntural, assente na reversão do programa da troika. Daí a imaginárias alianças programáticas e estratégicas com o PS vai uma viagem lunar. Embora se sintam depreciados pela ingratidão eleitoral, não lhes ocorre que para votar no PS já há o PS em primeira mão, sem precisar de um título alternativo.

Dir-se-ia, para quê repisar lições de outubro passado? Os embates agora são outros. Sendo tal juízo razoável, contudo já vamos vendo os mesmos arrebiques para eleições autárquicas, ainda distantes de um ano, a propósito da “intercomunicabilidade das esquerdas”. O sol das escolhas não é a sombra de terceiros, podiam ter aprendido no mínimo a respeitar isso.

Quanto à comunicabilidade, o ruído que fazem com a Europa Política é de modo a avariar os recetores.

Curiosamente, à medida que se acentua o conflito nacional com a União Europeia o pensamento que dali, daquela banda, brota é o federalismo mais extremado, desprovido de qualquer racional, quando a Europa se desintegra a nível político, vacuidade que cada vez tem menos adeptos, até no PS. Pode mesmo entender-se com alguma empatia o “processo Varoufakis”, e o seu quixotismo como o desagravo de uma mistificação institucional de todos os eurogrupos opressores. Mas, por cá, ninguém anda pelos labirintos de Creta.

Gostaria ainda de ouvir, impossível já sei, a autocrítica daqueles que do alto da sua arrogância propuseram um takeover (em língua inglesa não parece tão feio) ao Bloco de Esquerda porque o Bloco era chão que tinha dado uvas, tinham percebido tal depois de um congresso de alternativas onde não figurava esta. Após a última Convenção do Bloco, que se guardou de tal intercomunicabilidade, saiu o terceiro partido mais votado, o que se pode saber desde as margens do Mondego, a Caminha ou à ponta de Sagres. O problema é mesmo de política, não é uma mecânica de listas e muito menos o sortilégio autocentrado de uma plataforma claudicante. É tempo de andar.


Imagem:  T3xtures – Shadow lady. Alguns direitos reservados.

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