(Pos)colonialismo e a questão irlandesa em Marx

Bruno Góis

O combate ao domínio colonial, ao racismo e ao imperialismo, hoje como ontem, são necessidades da emancipação popular em geral, e em particular da classe de quem trabalha.

Entre 1974 e 1976, foram proclamadas e reconhecidas as independências da Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola – Timor é uma história mais complicada. Celebrar essas emancipações nacionais é reconhecer os calvários anteriores da escravatura, trabalho forçado, opressões e explorações várias, as prolongadas guerras de libertação nacional que se viram forçados a iniciar a partir de 1961. Celebrar esses emancipações nacionais é também reconhecer que foram incompletas e dolorosas, nomeadamente com guerras civis (Moçambique até 1992, Angola até 2002) e invasões externas (Timor até 1999).

Muitas perguntas se impõem. Que papel tiveram os movimentos de libertação nacional africanos para que uma mudança político-social ocorresse em Portugal em 1974? Até que ponto o facto de só tardiamente a luta contra o colonialismo português se ter tornado numa bandeira da oposição ao Estado Novo esteve na base da longevidade da ditadura? Não foi a guerra de libertação nacional dos povos colonizados o verdadeiro impulso à libertação de Portugal face à ditadura? A ambição das perguntas é grande mas o desafio é re-ler Marx com os olhos de hoje. E o exercício aqui é limitado a alguns destaques ao que Marx escreveu sobre a questão irlandesa – uma questão colonial. Não é o único escrito sobre esta matéria que estava para além do caso da Irlanda, mas fica o campo aberto à curiosidade de quem lê.

Em 1867 e 1870, Marx escreveu um conjunto de cartas acerca da Irlanda. De facto, a partir sensivelmente dos anos 1870 vai emergir uma nova forma de capitalismo que será mais tarde analisada não por Marx, mas por outros autores e em particular por Lenine: o capitalismo dominado pelo capital financeiro ou imperialismo. Um imperialismo que hoje conhece outras configurações e características. No entanto, vale mesmo assim a pena dar uma olhada nos referidos escritos de Marx, apontamentos dum momento próximo àquela viragem, e onde já se manifestavam continuidades e descontinuidades.

Numa das cartas, esta dirigida a Engels em dezembro de 1869, Marx tratava o assunto a propósito de uma discussão que estava em curso na Internacional. Previa-se que na semana seguinte a questão irlandesa fosse retomada numa nova reunião da Associação Internacional dos Trabalhadores (o tema viria a ser adiado para outra reunião, mas isso é secundário). Dizia Marx:

“A forma em que devo apresentar a questão na próxima Terça-feira é esta: Eu deverei dizer para além de todas as expressões ‘internacionais’ e ‘humanas’ acerca da justiça-para-a-Irlanda – que são já garantidamente assumidas pelo Conselho Internacional – que é do direto e absoluto interesse da classe trabalhadora inglesa ver-se livre da atual ligação com a Irlanda. Esta é a minha convicção firme por razões que, em parte, eu não posso dizer aos próprios trabalhadores. Eu acreditei durante muito tempo que era possível derrubar o regime irlandês através da ascensão da classe trabalhadora Inglesa. Foi sempre essa a posição que eu representei no New York Tribune. Um estudo mais profundo convenceu-me do oposto. A classe trabalhadora inglesa nunca irá conquistar nada sem primeiro se livrar da Irlanda. É por isto que a questão irlandesa é tão importante para o movimento social em geral…”1

Na carta a Mayer e a Vogt, em 1870, Marx considera a Irlanda como “o baluarte da aristocracia terratenente Inglesa”, porque “a exploração deste país é não apenas uma das principais fontes da sua riqueza material; é a sua maior força moral”. A Irlanda era portanto “o grand moyen pelo qual a aristocracia Inglesa mant[inha] o seu domínio sobre a própria Inglaterra”. A saída das forças de repressão inglesas, após a libertação da Irlanda, era vista por Marx como o caminho aberto a uma revolução agrária irlandesa e, pelas razões sobreditas, ao avanço da luta de classes em Inglaterra. Marx discorre ainda que enquanto persistir o domínio sobre a Irlanda a aristocracia e a burguesia inglesas estarão juntas no interesse comum de “transformar a Irlanda numa mera terra de pastagem, para fornecer o mercado Inglês com carne e lã a um preço o mais barato possível”. Mais ainda afirma que “na Irlanda a questão da terra foi até agora a forma exclusiva que a questão social assumiu, porque é uma questão de vida ou de morte para a maioria do povo Irlandês, porque ao mesmo tempo é inseparável da questão nacional2.

Além do mais a concentração da propriedade da terra expulsava os camponeses irlandeses, que chegavam a Inglaterra como mão-de-obra barata e isso também era do interesse da burguesia inglesa. A questão porém não termina por aqui, e apenas pretendo recuperar alguns aspetos analisados por Marx. Mas não podemos deixar de fora o que se segue:

“E mais importante que tudo! Todos os centros industriais e comerciais ingleses dispõem agora de uma classe trabalhadora dividida em dois campos hostis: os proletários ingleses e os proletários irlandeses. O trabalhador Inglês comum odeia o trabalhador irlandês porque vê nele um concorrente que faz baixar o seu nível de vida. Comparado com o trabalhador irlandês ele sente-se membro da nação dominante e por essa razão ele torna-se a si próprio um instrumento dos aristocratas e dos capitalistas contra a Irlanda e portanto reforça o domínio destes sobre si próprio. Ele cultiva preconceitos religiosos, sociais e nacionais contra o trabalhador irlandês. A sua atitude é praticamente a mesma dos ‘poor whites’ em relação aos ‘niggers’ nos antigos estados escravistas da União Americana. E o Irlandês paga-lhe na mesma moeda com juros. Ele vê no trabalhador Inglês simultaneamente um cúmplice e um instrumento estúpido do domínio inglês na Irlanda.”3

Para Marx, “[e]ste antagonismo é o segredo da impotência da classe trabalhadora inglesa, apesar da sua organização”. Era preciso superar a divisão entre trabalhadores ingleses e irlandeses. A Irlanda era portanto uma pedra de toque para a revolução proletária em Inglaterra, grande centro do capitalismo à época. Também em relação aos EUA, Marx via a necessidade, de uma combinação entre trabalhadores alemães e irlandeses, bem como americanos e ingleses que se quisessem juntar à causa. A questão irlandesa devia ser, no entender de Marx, uma prioridade para a Internacional4.

Analogias e transposições podem ser equívocas. Mas, hoje, que papel têm no capitalismo a sobre-exploração dos trabalhadores asiáticos, a persistência das desigualdades salariais e outras opressões de género, as migrações laborais, a asfixia financeira de países intervencionados pelas instituições europeias, o racismo, a islamofobia e a xenofobia por todo o lado? Como responder à passagem de bases trabalhadoras da Esquerda francesa para a extema-direita Frente Nacional (e a fenómeno semelhante agora a ocorrer também na Alemanha)? As perguntas são muitas, o trabalho a fazer é imenso. O combate ao domínio colonial, ao racismo e ao imperialismo, hoje como ontem, são necessidades da emancipação popular em geral, e em particular da classe de quem trabalha.


Imagem: Little Shiva – Marx likes…. Alguns direitos reservados.

Notas:

1 Karl Marx (1869) – “Letters on Ireland, Marx to Engels, 10 december 1869” in Karl Marx. The First International and After. Political Writings Volume 3. London: Verso, 2010. pp. 166-167.

2 Karl Marx (1870) – “Letters on Ireland, Marx to Meyer and Vogt, 9 april 1870” in Idem. Ibidem. pp. 168.

3 Idem. Ibidem. p. 169.

(nova versão do original publicado há um ano em esquerda.net)

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