Yanquis, go home?

Vítor Ruivo

Aqui para nós, que ninguém nos lê:

Os EUA, ou antes, o seu complexo político-financeiro-industrial-militar continua a ser o feroz e resiliente – esta é boa! – “maior inimigo dos povos” ou, pelo contrário, são os “campeões da democracia e a salvaguarda da civilização ocidental”?

Ou, nem uma coisa nem outra?

Podíamos ficar por aqui e já tínhamos pano para mangas!

Mas, “à noite, à noite”… ”inquietação, inquietação”… Se é melindroso o assunto!… ”neste cafééé!”

Oh, porra!

Mas não são eles quem:

– Para que, para todo o sempre, nos sirva de exemplo, não apenas ao arquipélago, mas a todo o mundo, matou e ainda hoje mata, a conta-gotas, mais de 200 000 japoneses, enquanto a criança cega não cessa de nos olhar no fundo de nós mesmos, Hiroshima meu amor?

– E o tanto sangue que choveu em Santiago, em Buenos Aires, em El Salvador… sempre a mando da CIA – o longo e criminoso braço de tantos abraços assassinos – então oculto e desmentido, para mais tarde, despudoradamente aberto, quando “desclassificado”?

– E as florestas vietnamitas regadas por toneladas de napalm que o génio de Giap e o grito imenso da criança nua reconverteram no fertilizante que adubou a vitória do seu povo?

– E Guevara – Hasta siempre Comandante! – na selva boliviana assassinado e o seu corpo exposto para gaudio dos mandantes?

– E o novo Comandante reincarnado no Chavez morto antecipado, por se ter atrevido a exclamar com todo o desassombro, na tribuna do areópago da ONU, após a fala do baby Bush – “Aqui cheira a enxofre!”?

– E não são estes apenas alguns “casos” na tão longa lista das suas invasões directas ou intermediadas, dos seus golpes mercenários aos derrubes encomendados a internos fantoches, que só à conta dos “gringos” do Tio Sam os séculos XIX e XX ficaram enxameados de centenas de agressões e morticínios por todo o mundo?

– E, na ironia armadilhada do seu tão proclamado “declínio”, não está já o novo século tão ensanguentado pelo “pavor e destruição” desde o Iraque ao Afeganistão, à Síria, à Líbia … à “guerra infinita” contra os terroristas de hoje, amigos de ontem?

– E, na ironia armadilhada do seu tão proclamado “declínio”, não está já o novo século conhecendo também a sua dedicação aos direitos humanos e à democracia, na Ucrânia “desprotegida”, na Venezuela “oprimida”, na Cuba “esvaída”, e até, ao que parece, no Brasil “desgovernado”?

– E, na ironia armadilhada do seu tão proclamado “declínio”, talvez apenas pela aceleração da descida, o seu poderio e o seu gasto militar não continuam tão grandes que, sozinhos, superam o total de todos os outros Estados do mundo?

– E, na ironia armadilhada do seu tão proclamado “declínio”, qual terá sido o erro táctico que levou a sua NATO, em vez de ter sido extinta após o fim do bloco de Leste, pelo contrário, a ter saltado do Atlântico Norte para todos os oceanos e para todos os continentes, colocando, mais do que nunca, sob a ameaça das suas botas e dos seus canhões todos os povos do planeta?

– Ah! Brecht, eu sei que não há machado que corte a raiz ao pensamento, mas não foi pela ironia armadilhada do seu tão proclamado “declínio” que eles levaram a sério o teu poema:

O Vosso tanque General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
– Precisa de um motorista.

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar.

e inventaram os drones?

Alto aí! Já chega!

Mas então, não são eles que:

– Salvaram a Europa, no Dia D, da besta nazi?

– E, com o seu benemérito Plano Marshal, permitiram a recuperação da Europa em ruínas?

– E que inventaram o Jazz tão diferente e ousado que até o nosso Lopes Graça se desagradava dele? Esta opinião podia ter um bocadinho de sectarismo ideológico, não?

– E que refrescaram a literatura que andava um bocado serôdia de tanto neo-realismo?

– E que deram ao mundo “A Voz”? Não a voz do dono, a do Sinatra!

– E que fazem os melhores filmes e as melhores séries do mundo? Que por isso é que as nossas distribuidoras e televisões o que passam é quase tudo deles, não é?

– E que ajudam todo o mundo que tem falta de democracia, e levam a internet mesmo aos que não querem?

– E que não fecham Guantanamo só porque os terroristas nunca mais confessam, não é?

– E que até já elegeram um negro presidente, e não tarda nada elegem uma mulher, que o outro é um bocadinho bruto. Tudo causas fracturantes, não?

– E porque a democracia é o pior dos sistemas à excepção de todos os outros?

– E porque não se pode querer tudo e o óptimo é inimigo do bom?

Sim! Sim!

Mas cá por mim, romântico resiliente e rebarbativo, concluo:

– Yanquis, go home!

Porque sem isso:

– Europa, não! Portugal, nunca! Ou antes pelo contrário?

Tu é que o sabias, oh Mário!

E tu, Rómulo, que dentro de ti enterraste o poeta, só porque não te querias repetir…

Morte ao Dantas! PIM!

Acaba já!

A mim me “rabuscas”!

(v.s.f.f.)


Imagem: Eirigipics – Resist Imperialism.Alguns direitos reservados.

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