A democracia não tem preço

Bruno Góis

O financiamento público dos partidos é fundamental. O contrário disso é lançar a política diretamente nas mãos das classes que já têm demasiada força material e ideológica nas sociedade capitalistas.

Uma das razões para não haver candidatos de esquerda com hipóteses nos EUA, por exemplo, é o facto do financiamento das candidaturas ser exclusivamente privado. Nos EUA, raramente há uma candidatura como a de Bernie Sanders. E mesmo a existência da sua candidatura é limitada. Para ter alguma hipótese no sistema norte-americano, este social-democrata, como tantos outros antes dele, acabou por se inscrever no partido Democrata. Apesar dos limites dessa estratégia, desde já fica a esperança principalmente na juventude que o apoia.

Sem financiamento público, a política fica nas mãos da banca e das grandes empresas. Num tal sistema, dificilmente têm hipótese de se organizar coletivamente, divulgar as suas ideias e conquistar posições de poder: as forças políticas que defendam os interesses de quem trabalha, a proteção ambiental, a ruptura radical com as opressões de género, o primado da cooperação internacional e a denúncia da guerra e do imperialismo.

O auto-financiamento é um argumento forte e é parte do esforço. Mas a desvantagem de partida é gritante. A força das classes populares está, de facto, também no seu número. Mas como é que se chega a organizar milhões de pessoas? Imaginemos um partido de massas: quanto maior é o coletivo partidário, maior é o potencial de auto-financiamento, mas também maior é a limitação material de boa parte dos membros. Acresce que não se começa logo com partidos de milhões de pessoas. Como é que se chega a construir esse partido político? Com linha política certamente. Mas esse processo é longo e precisamos de meios maiores do que as nossas capacidades próprias para poder percorrer esse caminho. Fazer o Estado financiar os trabalhos da democracia e do pluralismo é um serviço às classes populares.

Mais do que as outras forças políticas, os partidos políticos de esquerda precisam em permanência de usar alguns meios de divulgação e comunicação próprios. Precisam de fazer iniciativas mesmo fora das épocas eleitorais, ter jornais e portais de informação alternativa, fazer uso constante de cartazes e folhetos. Isto porquê? Porque quem quer transformar a sociedade não tem o mesmo eco na comunicação social dominante, muito menos no que diz respeito a todos os assuntos fora da agenda de comunicação dominante ou fora do enfoque que esta permite. Os partidos de esquerda não são meros comités eleitorais, realmente precisamos de discutir ideias e de envolver as pessoas.

A preponderância de financiamento privado das campanhas, direta ou indiretamente pela banca e as grandes empresas, quando cruzada com o famoso sistema uninominal e as suas variações (assunto que merece tratamento próprio) é o combustível perfeito para um sistema de corrupção. Mas isso é matéria que não interessa a muitos demagogos anti-partidos.


Imagem: Feral78 – Democracy. Alguns direitos reservados.

Nota: com as devidas adaptações, por serem movimentos eleitorais, o financiamento público das campanhas das listas de cidadãos é também um elemento de mais democracia.

Anúncios