Allen Ginsberg

Sara Azul Santos

Allen Ginsberg poeta inconformado da chamada beat generation foi autor de uma obra poética incomparável e que lida com a repressão económica, social e sexual que marca o século XX americano. As influências marxistas em Ginsberg estão presentes nos seus mais conhecidos poemas “America” e “Howl”, este último que irei desenvolver neste artigo.

Howl, publicado em 1956 (fazendo parte da “trindade” de livros icónicos da beat generation juntamente com “Naked Lunch” de William S.Burroughs e “on the road” de Jack Kerouac), teve grande impacto numa era marcada pelo macartismo que oprimia a liberdade e a qualidade das obras dos artistas norte-americanos.

Para além dos inuendos homoeróticos que Ginsberg faz neste poema (de lembrar que  Allen Ginsberg exprimia a sua liberdade sexual sem qualquer medo das repercussões que estas poderiam ter numa época em que a comunidade LGBT era fortemente reprimida nos EUA), alusões claras às suas visões inspiradas por ideologias francamente socialistas, influências essas que são possivelmente derivadas do facto da sua mãe ter sido membro do partido comunista norte-americano. Em “America”, Ginsberg é genuinamente franco em relação a isso:

(…) My mind is made up there’s going to be trouble. 
You should have seen me reading Marx.(…)[1]

Em Howl, poema esse também de forte conteúdo confessional, Ginsberg expressa-se diringo-se primeiramente a si mesmo para depois se dirigir a um colectivo de minorias discriminadas essencialmente pela sua liberdade de pensamento:

(…) who distributed Supercommunist pamphlets in Union Square weeping and undressing while the sirens of Los Alamos wailed them down, and wailed down Wall, and the Staten Island ferry also wailed (…) [2]

Dirigindo-se a Carl Solomon na Terceira parte deste poema, Ginsberg expressa a sua revolta mas também o seu empenho na luta tanto de trabalhadores e artistas, fazendo alusão à internacional.

(…) I’m with you in Rockland

where there are twentyfive thousand mad comrades all together singing the final stanzas of the Internationale (…)[3]

Howl é pois um documento de desespero e revolta por uma causa justa e socialista que movia Ginsberg. Este poema na sua estrutura assemelha-se a um grito, e o seu título reflecte isso mesmo (Howl corresponde a uivo em inglês). Num estilo livre que usa da anáfora para demonstrar de uma forma enfática a sua revolta poética, pode tirar o fôlego a qualquer um que o tente ler de seguida.

Interessante também observar que a “footnote to howl” (que é uma clara alusão à “footnote to the waste land” de T.S. Eliot, poeta modernista da literatura inglesa) contém não uma explicação mas uma experimentação na forma que usa a palavra Holy, não só para marcar um ritmo mas também para tocar no tema do sagrado, usando esta palavra não só com frases alusivas à sexualidade mas também para santificar todos os seus artistas contemporâneos:

(…)

Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cassady (…)

Convido portanto a ler estes dois poemas que estão disponíveis na íntegra no poetryfoundation.org:

Ler Footnote to Howl.

Ler Howl.

Ler America.


Imagem: CSU Archives/Everett Collect/REX.

Notas:

[1]N. – A minha cabeça está toldada, irá haver problema/Devias-me ter visto a ler Marx

[2] N.- Aqueles que distribuíam os panfletos supercomunistas na Union Square a chorarem e a despirem-se enquanto as sirenes de Los Alamos suavam, e suavam ao longo da Wall, e o ferry da Staten Island suava também

[3] N.- Estou contigo em Rockland onde vinte e cinco milhares de camaradas loucos cantavam o refrão da Internacional

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