Plural que oprime

Sara Schuh

A língua portuguesa é machista. A prova disso é que querer mudá-la, torná-la mais inclusiva, é capaz de arrancar os comentários mais sexistas e descontextualizados de sempre.

Gerou-se uma polémica em torno da proposta, apresentada pelo Bloco de Esquerda, que visa alterar o termo “cartão de cidadão” para “cartão de cidadania”. O termo “cidadão” não representa homens e mulheres. O cidadão, a cidadã. O termo “jornalista”, por sua vez, é aplicável a ambos os géneros.

A forma como nos expressamos está intimamente ligada à forma como pensamos. Não há uma explicação lógica para o facto de o masculino se poder sobrepor ao feminino, incluindo-o. Dir-me-ão que é apenas uma convenção. Respondo-vos que, felizmente, ultrapassamos muitas convenções ao longo da História da Humanidade (o uso deste termo é, por exemplo, uma delas).

Há pouco tempo cruzei-me com um texto que abordava este tema e a autora terminava dizendo que o mais grave na questão do machismo na linguagem é precisamente o facto de ser invisível. É invisível porque o encaramos com naturalidade. Aprendemos, através da linguagem, «que o “homem” fez a história», que a parte masculina engloba o todo feminino. Mais ainda, transmite uma noção de igualdade entre homens e mulheres que não é real – as mulheres ganham menos, estão mais suscetíveis ao desemprego, por exemplo.

Queremos a igualdade em todos os campos, incluindo na linguagem. Para que isso seja possível, é necessário que não nos anulem, mulheres, nos plurais masculinos.

Querer tornar a linguagem mais inclusiva não é algo assim tão radical, é só natural. O que é radical é o ódio demonstrado, por homens e mulheres, face a uma mudança que não exclui, apenas inclui.

Para concluir, esta não é a única proposta nem área de atuação do Bloco. Mas uma das suas vitais e mais importantes tarefas é a desconstrução da sociedade conservadora em que vivemos.

Gostamos de ser o elefante na sala que parte todas as porcelanas feias e poeirentas. Não abdicamos da luta contra o machismo – ou qualquer outra forma de opressão, a par de todas as outras lutas que travamos diariamente.

*Fotografia de Paulete Matos

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