O novo Império Romano do século XXI

João Vasconcelos

Há cerca de 2000 mil anos atrás uma grande parte do nosso planeta era dominado pelo Império Romano. Império que englobava vastos territórios da Europa, Ásia e África, países e regiões conhecidas como a Itália, França, Grécia e grande parte dos Balcãs, Ásia Menor, Síria, Egito, Palestina, Norte de África, Península Ibérica, Bretanha, parte da Europa Central e muitos outros territórios. A capital deste vasto Império situava-se em Roma e, mais tarde, em Constantinopla (hoje Istambul) com o Imperador Constantino.

O principal suporte social do Império Romano era a escravatura. Muitos milhões de escravas e de escravos produziam a riqueza necessária para alimentar as necessidades ociosas de outros grupos sociais minoritários, como o Imperador e a sua família, os patrícios, os senadores, os publicanos. Os próprios plebeus, considerados cidadãos romanos (tal como as classes mais ricas) – comerciantes, artesãos, trabalhadores livres, desempregados – e que constituíam grande parte da sociedade romana, eram igualmente os não privilegiados. Em suma, uma elite muito minoritária alimentava-se e vivia à custa de milhões de excluídos e escravizados. Ironia da História – foram estes excluídos e escravizados que, em grande parte, contribuíram para a derrocada e fim do Império Romano, dando início a uma nova etapa da História, a Idade Média.

A tal elite ultraminoritária, protegida por legiões de soldados, tudo possuía: riqueza, terras, vilas, dinheiro, palácios dourados, navios. Vivia no ócio, na luxúria, nos divertimentos, na abastança, dedicava-se à guerra, à intriga e ao crime. Enquanto os escravos, a plebe e os soldados morriam a trabalhar, com fome, na guerra e passavam por inaudíveis sofrimentos.

E agora 2000 mil anos depois? Sem dúvida que a vida melhorou, fruto das lutas dos povos, dos camponeses, dos artesãos e outros trabalhadores. A sociedade ocidental fez o seu percurso histórico ao longo das Idades Média, Moderna e Contemporânea. Muitas revoluções se sucederam e que contribuíram para a melhoria da vida dos povos – revolução industrial, revoluções liberais, revoluções populares e de índole socialista e muitas outras. No entanto, e olhando apenas para a Europa, muitos milhões de excluídos continuam a persistir, enquanto uma elite toda-poderosa e intocável tudo domina. Fora da Europa não é muito diferente.

Com efeito, vivemos uma época que é uma espécie de um novo Império Romano, embora no século XXI e à escala planetária. Este Império não tem apenas uma capital, tem várias – Berlim, Bruxelas, Washington, Moscovo, Pequim, Tóquio. Muitos milhões de pessoas, dezenas, centenas de milhões estão desempregados, são precários, são refugiados da guerra e da fome – são os excluídos deste século. Por sua vez, uns quantos, muito ricos, detêm grande parte da riqueza do planeta, vivem na corrupção, provocam as crises e as guerras, amealham fortunas nos Panamá Papers e outros offshores, possuem aviões e iates de luxo privados, compram ilhas paradisíacas. São os eurocratas de Bruxelas e de Merkel, os banqueiros, os príncipes do petróleo e dos diamantes de sangue, os Mexias, os Ricardo Salgados, os Eduardo e Isabel dos Santos, os Putins, etc. Esta a grande contradição, insanável, do nosso tempo. Todavia, a História prosseguirá o seu caminho, inexoravelmente.


Imagem: Jun – Roman collared slaves. Alguns direitos reservados. Relevo em Mármore, Smyrna (Izmir, Turkey), ano 200 da Era Comum.

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