As tramas da política e a política que é tramada

Gonçalo Ferrão

Estas últimas semanas foram e, certamente, as seguintes serão frutuosas em notícias sobre acontecimentos que, indubitavelmente, levarão as pessoas a aumentar os seus índices de desconfiança da cena política e dos políticos, quer no âmbito nacional quer internacional.

Realce-se os mais recentes acontecimentos com que o mundo nos honrou: a situação vergonhosa de pró-impeachment no Brasil e o recente escândalo já rotulado de Panamapapers.

Se quanto ao primeiro a qualificação de ‘vergonhoso’ é aquela que encontramos de melhor decoro de linguagem, para um verdadeiro golpe de Estado contra uma democracia instalada, após tantos anos de sofrimento das populações e de sucessivas formas de ditadura a governarem aquele que é talvez o país mais rico do continente americano, já o segundo, é simplesmente uma confirmação pública do há muito conhecido, ou desconfiado. Só os mais “distraídos” poderão demonstrar alguma surpresa.

Diz o povo ‘onde há fumo, há fogo’. É claro que existe algum fogo, ou algumas fogueiras no Palácio do Planalto. Mas é também claro que existe um incendiário vindo do norte e que fala mais a língua de Shakespeare, do que a de Camões. Para os tais “distraídos” lembramos as tramas realizadas na nomeação de Mauricio Macri sob a batuta da CIA. Tão só um dos líderes referenciados neste dito escândalo Panamapapers. Mera especulação, ou nem tanto?

Ainda para os mesmos, é bom recordar a importância da Argentina e do Brasil para a economia americana, agora que a porta cubana está entreaberta. Estamos a rever a histórica rota dos Malandros nos idos anos quarenta e cinquenta, agora com outros nomes no lugar de Pérons, Vargas, Batistas e Trumans. Será que estes dois acontecimentos estarão desligados? Certamente que não! Veremos realmente se é desta que teremos o tão desejado virar de página, como agora declarado para uma rádio por João Cravinho, o autor em 2009 de uma proposta de lei contra a corrupção, chumbada na AR.

Por Portugal, as tramas político-partidárias da ‘laranjolândia’, não passam da (re)marcação de uma agenda política para tramar as pessoas e as famílias, assim que a oportunidade voltar a sorrir.

Ao contrário do anunciado por muitos doutos analistas e comentadores, este 36º Congresso do PSD, não foi uma tentativa de Pedro Passos Coelho salvar a face de um congresso sem contraditório, mas foi sim, mais uma demonstração de força e teimosia de alguém que se roga ter ganho os últimos atos eleitorais – legislativas e presidenciais – mas quanto aos primeiros, força-se a engolir a legitimidade da Constituição, que tanto anseia mudar, e o tramou.

Por falar em Constituição, Marcelo Rebelo de Sousa, promove uma comemoração afetuosa dos 40 anos da primeira Constituição Democrática de 1976, que tanto ajudou a tramar, nas sucessivas sete revisões.

Alguém, tal como o seu líder partidário, espera que a Europa nos volte a tramar com o Pacto de Estabilidade e Crescimento e que, com isso, o governo se desmorone, para que o “presidente dos afetos” se esqueça destes e dos outros aparentes, para com o governo Socialista abrindo assim a porta das eleições antecipadas.

A prova dessa demonstração de força de Passos Coelho, está entre outros exemplos, no descaramento da nomeação de Maria Luís Albuquerque para a vice-presidência do partido, alguém que tramou os portugueses a banca e o atual governo, seguindo entretanto com a sua formação profissional, na empresa que tanto contribuiu para essa trama financeira.

No entanto, a grande trama política dos noticiários das últimas semanas reporta à dos refugiados. A Europa oferece, do nada, sete mil milhões de euros à Turquia para ajudar esta a recambiar os refugiados para as suas origens à pala de uma desculpa esfarrapada de só o fazer para os migrantes ilegais, como se houvesse legalidade de uns, diferenciada de outros, ou houvesse legalidade em todas as tramas humanitárias que a mesma Europa tem feito ao longo de várias décadas, nos joguetes políticos dos países que forçam a fuga a uma guerra particionada pelas armas do ocidente.

Por último a Grécia vê-se novamente a braços com a insistência da política tramada do FMI, do sr. Poul Thomsen e da sra. Delia Velculescu que defendem a “…necessidade de um acontecimento semelhante ao default grego de 2015, […] propondo confrontar Angela Merkel com a ameaça da saída do FMI nas negociações, fragilizando-a junto da sua base parlamentar, para obter em troca a luz verde para a reestruturação da dívida da Grécia. Os dois responsáveis do Fundo mostram-se insatisfeitos com as negociações em curso e tentam desenhar uma estratégia que obrigue a Comissão a aceitar as metas de redução do défice grego propostas pelo FMI, que obrigam a uma dose suplementar de austeridade sobre a Grécia, muito para além da prevista no acordo assinado em julho.[1]

Calhando, Portugal será o próximo tramado. Se é que não está já na senda.


Imagem:  Christopher Dombres – Corruption 2003. Domínio público.

Notas:

[1] In Wikileaks / InfoGrécia, “FMI apanhado a planear nova bancarrota na Grécia”, 2 abril 2016.

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