França: um país e um povo levantados do chão

Rafael Boulair

«É bem possível que estejamos a fazer algo de extraordinário. O poder tolera as nossas lutas quando são locais, setoriais e dispersas. Hoje mudamos as regras do jogo.» Assim falava o economista marxista Frédéric Lordon, no dia 31 de março, dirigindo-se à multidão que se estava reunida na Place de la République, no coração de Paris.

Uma multidão que se manifestou pelas ruas de Paris contra o ataque aos direitos laborais perpetrado pelo governo Hollande-Valls e que, desta vez, decidiu que não ia para casa no fim da manifestação ou do piquete. Concentraram-se aos milhares e ocupam a cêntrica praça, onde rapidamente se organizaram atividades, desde concertos a conversas sobre temas variados e a assembleias gerais. Depois da “Grève Générale”, gritava-se “Rêve Générale”. Ouviam-se discursos políticos, debatia-se sobre a retrógrada Lei do Trabalho, mas também sobre o securitarismo crescente da sociedade francesa, depois dos atentados de novembro, sobre a repressão policial, sobre as resistências operárias que há meses eclodem pelo país, uma após a outra, esboçando os contornos de um descontentamento que valera uma camisa a um patrão da Air France. Um descontentamento que não mais podia ficar mudo, um enorme espírito de revolta coletiva do assalariado, de rastos com a política austericida e ultraliberal do governo, exprimia-se espontaneamente enquanto se via uma das principais praças parisienses ser ocupada por uma maré de gente indignada e insubmissa, revoltada e, sobretudo, determinada na sua recusa a abrir mão de mais direitos sociais e humanos.

Para compreendermos a eclosão de aquilo a que já podemos chamar um novo movimento social, recuemos ao tempo em que, goradas as ilusões dos que puseram Hollande no Eliseu, França viveu um período triste e cinzento, de refluxo das lutas, de resignação, de apatia e de medo que, não por acaso, coincidiu com o período de ascensão da extrema-direita. A frustração dos trabalhadores foi habilmente canalizada pelo sistema para o ódio étnico-racial, num clima de verdadeira euforia islamofóbica e de pavor que o trauma do terrorismo provocou. Contudo, as lutas dos últimos meses  (batalha sindical contra os despedimentos em massa na lucrativa Air France, prisão ilegítima para oito trabalhadores da Goodear, criminalização da luta social) vinham demonstrando o óbvio – a impossibilidade de reprimir o irreprimível. A gota de água foi a apresentação do projeto de lei sobre o trabalho, considerado pelos sindicatos como um regresso ao século XIX. Perante uma ameaça de tal envergadura às suas vidas, o povo francês saiu massivamente à rua, em manifestações que rapidamente atingiram meio milhão de participantes (9 de março) e um milhão nas marchas de 31 de março, acompanhadas de uma massiva e potente greve geral.  Contudo, o que mais assustou o governo, fazendo-o deixar cair a lei aos pedaços, foi o envolvimento dos jovens na luta, bloqueando liceus e faculdades e dando a energia e a alegria necessárias ao prosseguimento da luta, empolgando e dando força a um combate mais abrangente. Ver a Sorbonne de portas fechadas só poder fazer lembrar bons tempos.

A Lei El Komri  despertou definitivamente a sociedade francesa, os jovens que querem um futuro, os precários que querem emprego digno, os trabalhadores pobres que exigem salários decentes. Mas foi somente o embrião que permitiu a emergência de uma maré progressista, radical e emancipatória: essa maré insubmissa que se reúne na République ao entardecer e fica, inclusive, acordada de noite, em sessões de rua já conhecidas por Nuit Debout. É impossível prever o futuro deste fenómeno assembleário, mas, como dizia Vicotor Hugo, “nada é mais forte do que uma ideia cuja hora chegou”e é certo que a esperança que brota em França neste início de primavera não voltará a calar-se.


Imagem: Place de la République. fotografia via AntoineStouls.

 

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