A manha de Cristas

Luís Fazenda

A nova líder do CDS, Assunção Cristas, elaborou uma historieta sobre o fim do voto útil. Uma homenagem da criatura ao criador Paulo Portas. Resume-se o ponto ao seguinte: havendo uma maioria PS com as “esquerdas radicais”, isso significa que só funcionam maiorias absolutas, ou de direita, ou de esquerda. O voto no CDS valeria tanto como o voto no PSD para uma maioria de direita, o voto no CDS não seria um voto perdido para formar governo…

A patranha desconstrói-se facilmente. Desde logo, a lei eleitoral beneficia com o método D’Hondt as coligações que se candidatam à Assembleia da República. Por isso, CDS e PSD fizeram a PaF, para aproveitar a vantagem em número de mandatos eleitos. Donde, a candidatura separada do CDS prejudica a própria pretensão à maioria. Mais, a ideia é em si incoerente: a lógica de afirmação própria do CDS anula-se com a garantia prévia de que haja o que houver fará acordo de governo com o PSD, de quem tenciona demarcar-se (?). Admitamos, num futuro qualquer que o PSD se entende com o PS para sustentar um governo, onde fica a garantia de Cristas? Admitamos que o PS não lhe interessa ou não queira (basta repetir uma maioria a sós) estabelecer acordo com as esquerdas radicais. Admitamos que o BE ou o PCP não estão interessados, por razões programáticas ou outras, em fazê-lo. Aliás, situação que pode ocorrer por vários motivos com a pressão e chancela da Comissão Europeia, leia-se direita europeia. O suposto alívio do voto útil é uma elaboração de pura manipulação política. Releva da dificuldade do CDS ter proposta política global que se diferencie do PSD.

O que é estranho é esta manha de Cristas ter tido tanta saída nos habitualíssimos comentaristas políticos. Não se trata apenas da conversa politiqueira nos media onde a direita claramente hegemoniza… A causa é mais conveniente. A burguesia hoje virou marcelista e discorda do tipo de confronto de Passos com Costa para apressar eleições. Os apoios de Estado às empresas e aos negócios reclamam estabilidade, pelo menos temporária. A líder do CDS aceitou esse prisma de análise, e por isso é bafejada pela brisa, pouco importa em concreto como quer colorir a mensagem do CDS.
A direita marcelista não está em pausa de oposição mas delineia um caminho para acumular forças à custa do desgaste do governo e da exploração das divergências entre o PS e os partidos à sua esquerda. As condicionantes económicas negativas e a chantagem da troika no poder do euro, as insubstituíveis diferenças do BE não vão deixar de existir. O que não tem dúvida é que o produto social bruto deste governo do centro-esquerda é a melhor forma de travar a direita marcelista, e é um sinal aos sindicatos para não ficarem na bancada. Valorizar esse produto e ampliá-lo é o melhor remédio.

Imagem: foto de Assunção Cristas.

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