Discriminação

 

Filipa Menezes

A discriminação, hoje em dia, é como a tradição: já não é o que era. Na opinião de algumas pessoas, é ainda mais grave e difícil de combater. O motivo é simples. Vivemos numa era da “discriminação politicamente correcta”.

Quantas vezes já ouvimos as frases “eu até tenho um amigo que é gay”, “eu até tenho uma amiga que é preta” ou “eu não tenho nada contra os ciganos, mas… “? Provavelmente a resposta é “muitas”. É um modo de “correcto” que está tão incorrecto como as ideias que sustentavam como “normal” que se obrigasse as pessoas de origem africana a ceder o seu lugar num autocarro[1]. No entanto, é um comportamento mais difícil de corrigir pois está um pouco em cada um de nós e não é visto como uma abominação social, apresenta-se como “só uma opinião”. É verdade que todos temos direito a ter uma opinião, mas é necessário ver até onde a nossa opinião é legítima e inócua. Uma opinião que ofende ou magoa uma outra pessoa não é uma opinião, é um insulto.

Muitas vezes, a questão não está no que é dito mas sim na intenção com que é dito. O mesmo se reserva aos actos. Referir o seu estado a um deficiente físico não é descriminação desde que a intenção não seja maliciosa e sim construtiva. Referir a etnia ou “raça” de uma pessoa, a orientação sexual ou relacional, o género, a posição social, não é discriminação a menos que seja com tal intenção ou com isso se negue a individualidade da pessoa, prendendo-a numa categoria. O problema é que muitas vezes, mesmo sem nos apercebermos, temos essa tal intenção maliciosa nas nossas palavras ou acções.

Não há um modo de corrigir os comportamentos discriminatórios do lado de fora. Leis e sensibilização podem encaminhar o percurso mas a verdadeira mudança tem que começar em cada um de nós. Sabemos que a discriminação não é socialmente aceite: então porque continuamos a praticá-la?

Na verdade, o nosso estado de politicamente correcto chegou ao ponto de mostrarmos o quanto somos discriminatórios até quando tentamos corrigir um comportamento de discriminação. Assisti, há um tempo, a uma situação interessante que demonstrou este ponto: enquanto duas pessoas estavam a discutir os direitos da população cigana, um dos intervenientes na conversa disse rapidamente “não fales em ciganos, isso é xenofobia. Diz ‘essas pessoas’ em vez de falares em etnia cigana”. Isto acontece porque tomamos certas palavras como sendo negativas: cigano, gay, homossexual, lésbica, poliamoroso… o simples facto de estas palavras estarem no nosso “dicionário mau “ mostra que as associamos a pessoas ou situações negativas. E não é esse simples facto discriminar?

As nossas gerações futuras ainda são ensinadas a colocar todas estas palavras na “gavetinha” do mal. As crianças ouvem que não se deve chamar gay ao colega “porque é feio” e não pelo facto de não corresponder à realidade. Já vi crianças crianças ciganas a usar “eu sou cigano” para assustar os outros, pois sabem que são vistas como pessoas perigosas. Na verdade, quando uma criança cigana ouve como resposta “então mas qual é o mal?” sente-se baralhada. Talvez isso seja pedagógico.

Por todos estes motivos, deixo um trabalho a todos os leitores: vamos pensar quais são as palavras que constam no nosso “dicionário do mal” e ver, uma a uma, se de facto pertencem lá. É o primeiro passo para criar um mundo onde será mais fácil respirar para todos nós.


Imagem:  Jes – Discrimination. Alguns direitos reservados.

Notas:

[1] Refiro-me ao mítico caso de Rosa Parks que com o gesto de recusar a regra racista de ter de ceder o seu lugar no autocarro deu força à luta anti-racista nos EUA. Aconteceu a 1 de dezembro de 1955 e serviu de catalisador do boicote aos autocarros de Montgomery. Essa luta levaria o Tribunal Supremo dos EUA a declarar essas regras como inconstitucionais.

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