Voltar às ruas

Vítor Franco

Governos social-liberais ou social-democratas costumam provocar expectativa nas populações. Os protestos tendem a amainar e dá-se o benefício da dúvida; até porque “Roma e Pavia não se fizeram num dia” e as heranças dos governos anteriores são sempre “mais pesadas do que o esperado”.

Acrescem tempos difíceis de ataques fascistas e terroristas sucessivos, aumento das pressões nacionalistas e de extrema-direita, reforço de medidas austeritárias e aumento da pressão ideológica conservadora. Tudo isso tende a remeter “a equipa dos trabalhadores” para a defesa.

Tudo parece correr mal para a defesa dos direitos humanos. Milhares de pessoas morrem afogadas no Mediterrâneo e outras centenas de milhares adoecem esperando em campos de lama e fome, perante a indiferença generalizada.

Governos de extrema-direita, e “nem tanto”, erguem novos muros de vergonha e aprovam deportações em massa contra os convénios humanitários internacionais; fatos inacreditáveis há bem pouco tempo. Em consequência, alguns discursos recentes do papa Francisco parecem vindos quase de um líder da esquerda radical.

A esquerda não pode ficar na defensiva. A esquerda tem de reerguer a bandeira da solidariedade, do internacionalismo, dos direitos humanos e dos trabalhadores. A esquerda precisa de sair à rua contra a sucessão de medidas de austeridade em sucessivos países.

Em tempos, os movimentos sociais, em particular os fóruns sociais europeu e mundial, criaram esperanças e mobilizações notáveis. A “compra” de parte dos seus dirigentes por governos “social-democratas” e a rendição destes ao regime único da austeridade e da financeirização mafiosa da economia, de que o italiano foi exemplo e de que o francês assegura continuidade, desanimou as novas vanguardas em formação e desarticulou as novas resistências em formação.

Urge voltar a concentrar esforços em alianças e em mobilizações internacionais. É preciso vencer vários medos: o medo do directório antidemocrático da União Europeia, o medo da inevitabilidade, o medo do terrorismo, o medo de ter medo.

Não esperemos por sindicatos anquilosados que dirigem a Confederação Europeia de Sindicatos, não esperemos por fóruns moribundos; em todos eles a nossa voz deve fazer-se ouvir, mas é necessária uma nova referência de atração e movimento.

É preciso contra atacar e reganhar as ruas. Faz falta um dia de manifestações em todas as capitais europeias. Só para começar.


 

Imagem: foto de José Filipe – Manifestação de 15 de setembro de 2012. Que se lixe a troika /Santarém.

 

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