Todos somos refugiados

Vítor Ruivo

Os que o somos. No “Ocidente”, como nos povos em fuga, são todos os de baixo, explorados, conscientes ou não dessa exploração. Cá e lá, mais alguns outros, menos ou quase nada explorados, mas conscientes e indignados pela cada vez maior iniquidade do desgoverno capitalista. Diz-se, 99% da população mundial. Talvez 90%, numa visão mais realista. Ainda assim, a esmagadora maioria, porém tremendamente longe de o seu número ser a sua força.

Porque é tão grande essa distância? Porque, cá e lá, somos refugiados sem refúgio, mas ainda não demos por isso.

Os senhores do mundo não nos querem seus iguais, só nos querem como servos, eternamente agradecidos, ou, mesmo que descontentes, sempre obedientes e senão descartáveis. Os mesmos que pronunciam hipócritas reprimendas aos muros da Hungria, ou contra as redes de traficantes, são quem agora negoceia com o governo turco uma rede bem mais criminosa, porque se diz legítima e legal – o serviço miserável de reter e recambiar para o abismo da guerra os milhares de pessoas iludidas por um refúgio na Europa. E, através da NATO, toda a entente ocidental se associa nessa operação mafiosa.

É tempo de os refugiados de cá e de lá começarem a perceber que não têm para onde fugir. Que não têm quem os salve se não forem eles próprios a salvar-se.

Sob o efeito do atentado que acabou de ocorrer em Bruxelas, dir-se-ia no coração das trevas, não fora o seu verdadeiro coração se encontrar lá longe na sede do Império, a tragédia de hoje [22 de março de 2016] não pode ser ignorada.

Mas, no polo oposto dos noticiários e das opiniões de mil e um políticos e comentadores que nos estão a encher o dia e a cabeça, consolida-se a convicção de que todos somos (os que somos) refugiados sem refúgio. Esperar encontrá-lo sob a protecção das agências de espionagem, das forças de segurança, dos militares, todos eles armados até aos dentes, e na obsessão dos governos seus mandantes de que a única solução contra o terrorismo é construírem um Big Brother de tal dimensão que não lhe consiga escapar nem o mais pequeno gesto, a mais pequena palavra, o mais subtil pensamento (o seu utópico ideal!), é uma ilusão tão grande como a monstruosidade desse projecto que cada vez mais domina o dia-a-dia de grande parte dos países do planeta.

Por isso, é tempo de chamar os bois pelos nomes. Por trás dos governantes que, peça a peça, montam esse Big Brother, está o comando maior da rede dos super monopólios do capital financeiro, industrial e militar que a partir do centro norte-americano se articulam, em conluio e em competição, com os outros polos capitalistas da Europa, da Rússia, da China e de outros estados de menor peso.

É para alimentar sempre mais esta rede que as marionetas governamentais do Ocidente, após a desintegração do “perigo comunista mundial”, fomentaram os fundamentalismos e as disputas religiosas, fosse exacerbando os nacionalismos e a guerra na Europa central e de leste, fosse nas invasões militares no Médio Oriente, na Ásia e em África. Desde logo, reconvertendo e ampliando a NATO que, em articulação com as centenas de bases militares dos EUA por todo o mundo, se converteu na aliança agressiva e destruidora mais poderosa de sempre.

Foi das chamas deste terror de Estado imperialista, dos milhares de mortos que provocou e provoca, dos hospitais, escolas, casas, pontes, cidades, reduzidas a pó, países inteiros desfeitos, milhões de pessoas em fuga, refugiados sem refúgio, que nasceu e se alimenta o chamado “terrorismo internacional” hoje alcunhado de islamita, amanhã sabe-se lá com que nome.

Quem mais diz combatê-lo e quem, em nome desse combate, encosta à parede todas as liberdades individuais e colectivas e todas as democracias, até as mais musculadas, levando ao poder extremas-direitas até há pouco residuais, faz dos direitos humanos uma palhaçada sem sentido e não está de modo algum interessado em acabar com o terrorismo porque o alimenta para com ele se alimentar.

Será esta uma visão unilateral e exageradíssima que só sabe ver a maldade e o perigo de “um dos lados” enquanto desvaloriza a desumanidade, o fanatismo, a crueldade, o retrocesso civilizacional, do “outro lado”?

Este não é sequer um pequeno problema para os unilaterais do lado dos senhores do mundo. Há muito que eles têm a sua visão, a propagandeiam e implacavelmente actuam como se tratasse de um “choque de civilizações” em que a civilização ocidental se tem de defender e precaver contra os fanatismos e barbarismos, ontem do perigo comunista, hoje do fundamentalismo islâmico. E com esta visão, tragicamente enganam os povos, incentivando uns contra os outros e, também uns contra os outros, viram os refugiados de cá e de lá contra si próprios.

E qual é a visão, qual a acção, de quem se quer fiel da balança entre um e outro “lado”? Não será ficarem eternamente medindo prós e contras, do lado de fora do choque das classes e da sua luta?

Por isso, também é tempo de não se apelar apenas aos governos marionetas para que ponham em prática as justas medidas de terminar a venda de armas ou a compra de petróleo aos terroristas e aos Estados que os apoiam, quando é dessa venda e dessa compra que os seus patrões em grande parte se alimentam e perpetuam. É tempo de não vacilar contra a aceitação do prosseguimento do estado de excepção em França (ou agora com todas a hipócritas e inúteis medidas securitárias na Bélgica), ou na aceitação da intervenção militar na Síria, a pretexto do combate ao Estado Islâmico, pelos responsáveis pelo retalhamento do Médio Oriente. É tempo de, quando se fala em “perseguição impiedosa” aos bombistas assassinos ou na acção contra o EI, se falar também que não são as forças de segurança dos governos fantoches quem tem autoridade ou legitimidade para o fazer, porque o fazem subvertendo o mandato que lhes foi dado e enganando e manipulando as populações que dizem querer defender.

Finalmente, é tempo de levantar a palavra de ordem “Refugiados de lá fora e refugiados de cá dentro – a mesma luta!” e, em torno dela, avançar num verdadeiro movimento independente e internacionalista que ponha uns e outros do mesmo lado, contra o lado dos donos do Império.

Para que, alguma vez, o refúgio de todos os refugiados seja todo o mundo.


Imagem: cartaz do Bloco de Esquerda.

 

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