A juventude desinteressada ou a juventude que não interessa?

Marta da Fonseca

Somos jovens. Somos qualificados. Temos ideias. Ainda assim somos apelidados de “geração desinteressada”.

Recuso-me a aceitar esta ideia de que somos a juventude do “não quero saber”, este estereótipo de que em nada participamos e que nada fazemos, sem, pelo menos, perguntar o porquê.

O Fundo das Nações Unidas para a População fez, em 2012, um estudo sobre a população mundial, onde se conclui que nunca houve tantos jovens no mundo como agora, representamos quase metade de sete mil milhões.

No que toca à participação, os números já não são tão altos. Em 2014, aquando das eleições para o Parlamento Europeu, de todos os que se apresentaram às urnas, só 28% eram jovens (18-25), em Portugal foram apenas 19%. Quando são confrontados com um pedido de justificação para tal abstenção, 64% afirma que votar, na realidade, não altera nada, outros admitem ainda, que não estão suficientemente informados para o fazer.

Uma análise mais aprofundada, no mesmo ano, permitiu concluir que 44% dos jovens da União Europeia admite não estar sequer envolvido em qualquer tipo de organização, sejam elas de carácter desportivo, cultural ou outros.

Este é um tema que já foi abordado diversas vezes, mas poucas foram as ocasiões em que a conclusão fosse fiel à realidade.

Há duas perguntas, para além de outras, que são importantes e devem ser feitas.

A primeira é a questão da educação. A escola tem um papel fundamental no desenvolvimento de uma criança, ou de um adolescente. É a coluna dorsal da nossa formação, e é da máxima importância a aprendizagem de áreas específicas como a matemática, as ciências ou as línguas. Contudo há uma área que partilha dessa importância e é muitas vezes esquecida, totalmente ignorada e mal aproveitada.

Muitos alunos têm, nos seus horários escolares, 45 minutos semanais de Formação Cívica, onde se discute de tudo, menos a formação cívica propriamente dita. Viver em sociedade requer aprendizagem, é fulcral sabermos os nossos deveres e acima de tudo os nossos direitos. Não deixa de ser preocupante que, num país onde o ensino obrigatório vai até ao 12º ano, ainda existam jovens que não sabem que partidos políticos existem, como funciona o sistema eleitoral ou quem são os nossos representantes.

Estamos a formar jovens civicamente analfabetos, e desengane-se quem acha que isto não passa de uma pequena falha, não, é o sistema no seu melhor. Faz parte de uma campanha ideológica onde é muito mais benéfico sermos ignorantes. Quando não sabemos os direitos que temos, é impossível saber quando nos estão a roubá-los.

A segunda questão, também ela bastante significativa, é a do “porquê participar”?

Dizer que a representatividade não é um problema em Portugal é uma falácia. Os jovens não se revêem nem nas formas, nem nos mecanismos de fazer política no nosso país.

A prioridade não passa por nós. Custa convencer um jovem a ser politicamente activo quando as prioridades são os grandes interesses económicos, onde o futuro não é construído connosco, nem para nós, quando sabemos que o que nos espera são empregos precários, na melhor das hipóteses, quando temos líderes partidários a apelidar manifestações de “tristes espectáculos”. É muito difícil falar para quem não nos quer ouvir.

É preciso fazer o exercício de relembrar que a Assembleia da República é a casa do povo, a mudança passa por lá, passa pelas ruas, passa por nós. Libertarmo-nos desta ideia de algures houve uma culpa, e ela é nossa. Agarrar o nosso destino e ignorar o discurso à direita, de que os problemas dos jovens estão todos resolvidos. Abrir os espaços de discussão, sejam eles movimentos, associações académicas ou partidos.

Somos uma força transformadora, temos energia, aptidão e acima de tudo, vontade de inverter este percurso. Agora, não nos chamem de desinteressados se na realidade não nos ensinaram e nunca nos quiseram escutar.


Imagem: foto de José Filipe – “Ana Filipe lendo o manifesto do protesto”. Que se lixe a troika/Santarém. 2 de março 2013.

 

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