Waiting for Godot

Sara Azul Santos

Godot como símbolo, e afastando-me assim da explicação mais massificada que aproxima esta figura a deus, pode ser visto como uma certa humanização de uma revolução.

 

“ESTRAGON: Let’s go.

 VLADIMIR: We can’t.

ESTRAGON: Why not?

VLADIMIR: We’re waiting for Godot.”[1]

 

Escrito em francês em 1952 e traduzido pelo próprio Beckett em inglês em 1955 Waiting for Godot é a peça fundamental para entender a dramaturgia moderna do século XX e o teatro do absurdo. Para além de Waiting for Godot, a sua obra mais reconhecida, Samuel Beckett escreveu Endgame em 1957, Come and Go em 1965, para além de dezenas de outras obras tanto dramatúrgicas, como romances e ensaios. Recebeu o prémio Nobel da literatura em 1969.

Em Waiting for Godot, Estragon e Vladimir sentados numa árvore, discutem a vinda de Godot, que se torna o foco de toda a peça. Beckett não nos diz quem ou o que é Godot, mas abre inúmeras possibilidades para a sua descoberta (ou para a infindável e contínua busca pelo seu significado).

A explicação mais recorrente para o que significa Godot seria uma conotação directa a deus ou à religião (dado também a ligação morfológica da palavra em inglês – god- godot, e pela alusão à bíblia e aos evangelhos na primeira parte da obra). Tentarei neste texto encontrar uma outra explicação para a personagem que dá vida a toda esta peça de Beckett.

Godot como símbolo, e afastando-me assim da explicação mais massificada que aproxima esta figura a deus, pode ser visto como uma certa humanização de uma revolução.

Se a situação histórica em que a peça se encontra, se encontra também num sistema capitalista, Vladimir e Estragon ao ficarem estagnados não mudam o sistema em que vivem, compactuando com o mesmo. Todas as tentativas de movimentação por parte destas personagens, ou são rebatidas com a entrada de outras personagens ou pelo diálogo absurdo que mantêm entre si. A peça sugere também que qualquer movimento para alterar o sistema capitalista sairá infrutífera, daí a constante estagnação por parte de Vladimir e Estragon.

As restantes personagens desta primeira peça de Beckett, constituem também um grande papel nesta possível explicação da figura de Godot. Pozzo aparece em cena, sendo imediatamente confundido com Godot, quando na verdade é uma personagem que poderá representar a exploração capitalista (pois apresenta-se com Lucky seu escravo). Para além da exploração (e neste caso exploração humana que pode ser ligada a uma exploração laboral, representando Pozzo a classe patronal e Lucky a classe trabalhadora) elabora-se aqui no mundo de Waiting for Godot uma hierarquia nestas figuras, que é aceite tanto por Vladimir e Estragon como pelo próprio Lucky.

Estas duas personagens na sua segunda visita a Estragon e Vladimir apresentam características diferentes. Pozzo encontra-se cego e Lucky com algum défice cognitivo que não existia na sua primeira aparição. A cegueira pode também ser aqui um símbolo, pois ao longo da literatura anglo-americana, as personagens que são ou ficam cegas ao longo das histórias conseguem ver para além dos sentidos.

“POZZO:
I am blind.
(Silence.)

 

ESTRAGON:
Perhaps he can see into the future.”[2]

Vladimir e Estragon aguardam por algo que não existe na sociedade capitalista da época. Sendo esse o caso, podemos acreditar que mais do que esperar por uma libertação ou revolução, Vladimir e Estragon esperam por uma nova sociedade que parece nunca chegar. Será essa uma comunidade socialista? A verdade é que ao sê-lo toda a peça culmina em frustração, pois nenhuma acção consegue mudar o sistema capitalista em que as personagens se inserem. A não ser, é claro, a esperança clara da chegada de Godot.

O próprio Beckett admitia não saber o quê ou quem era Godot, o que dá uma liberdade de interpretação ao leitor –“ If I knew, I would have said so in the play’[3] – quando questionado por Alan Schneider sobre quem ou o que seria Godot.

Está nas mãos do receptor o poder de interpretar e decifrar a figura de Godot, bem como o papel que as outras personagens mantêm na busca por uma alternativa ao sistema ali imposto.


Imagem: Samuel Beckett – Waiting for Godot. 1st English edition.

Referências

[1] N.- ESTRAGON – Vamos

VLADIMIR – Não podemos.

ESTRAGON – Porque não?

VLADIMIR – Estamos à espera de Godot.

[2] N. POZZO – Estou cego (silêncio) ESTRAGON – Talvez consiga ver o futuro

[3] N. Se eu soubesse, tê-lo-ia escrito na peça.

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