Terrorismo: a extrema-direita agradece!

 

Beatriz Arnedo

Um dos principais problemas que assombra a Europa neste momento é precisamente o crescimento da extrema-direita europeia. O aumento do extremismo na Alemanha retrata um problema ainda maior devido ao passado histórico do país. A União Democrata Cristã (CDU) de Merkel parece estar a ser castigada por não se recusar a dar asilo aos migrantes vindos da Síria e a Altentativa para a Alemanha (AfD) de Frauke Petry aproveita o momento. Mas, naturalmente, o problema do crescimento da extrema-direita não se restringe apenas à Alemanha, com Petry. Também se está a dispersar em outros países da Europa, assim como no continente americano. Tomemos como exemplo Marine Le Pen em França, Geert Wilders na Holanda, Nikoláos Michaloliákos na Grécia, Jair Bolsonaro no Brasil ou Donald Trump nos Estados Unidos.

As relações internacionais poderiam pautar-se pela cooperação e progresso coletivo, contudo o rumo que a história mundial parece estar a seguir é outro. Os princípios do fascismo parecem estar a tomar o lugar dos ideais de paz, democracia e segurança que a história mundial revelou necessários. O retrocesso face aos legados do pós-segunda-guerra mundial está agora a emergir com um ímpeto que até há bem pouco tempo atrás parecia impossível e a ascensão do terrorismo foi sem dúvida a faísca do reaparecimento do ultra nacionalismo um pouco por todo o mundo.

Os eleitores dos vários países onde o extremismo da direita está a ressurgir veem com bons olhos as políticas de anti-imigração. No fundo, reacenderam os ideais do realismo político deturpado e falacioso dos pensadores desta corrente, que acreditavam que o egoísmo é a única solução viável e que os Estados, em vez de cooperarem, devem proteger exclusivamente os seus interesses; nem que para isso se arremessem os Direitos Humanos para segundo plano. É, portanto, com esta corrente puramente ideológica, baseada na doutrina medieval do “salvem os nossos, matem os outros”, que os extremistas justificam a sua posição.

Os programas xenófobos da extrema-direita sempre se socorreram de argumentos de defesa da intolerância, associando a presença crescente de população imigrante ao aumento da violência, do desemprego, do baixo desempenho económico, entre outros discursos puramente manipulativos e sem qualquer fundamento. Culpa-se a imigração para esconder as fragilidades de um mundo assente num sistema capitalista e ganancioso. Fecha-se fronteiras para barrar pessoas inocentes que fogem da guerra, olha-se para baixo e espezinha-se quem é frágil e vulnerável; mas nunca se olha para cima, nunca se aponta o dedo aos grandes magnatas da indústria do petróleo ou da indústria das armas e certamente, nunca se levanta a voz para questionar os políticos que viabilizam um mundo onde os negócios e o lucro valem mais que vidas humanas.

Com a crescente influência do Daesh e das suas causas terroristas, o principal argumento dos ultranacionalistas, que mais seduz os eleitores, é o de recusa de acolhimento dos refugiados, justificada pelo risco da entrada de terroristas nos respetivos países. Os partidos políticos de extrema-direita culpam a crescente instabilidade do projeto europeu nos migrantes. O que parecem esquecer ou preferem omitir é a facilidade com que os terroristas estão inevitavelmente a entrar na Europa por terem nacionalidade europeia, ou, carecendo desta, por encontrarem alternativa na contrafação de documentos de identidade. Conclui-se, portanto, que os terroristas conseguem entram em território europeu de uma forma ou de outra e que as verdadeiras barreiras apenas se colocam a quem foge da guerra. Uma guerra da qual a própria Europa é cúmplice.

Nos tempos que correm, os Direitos Humanos parecem agora uma realidade distante ou uma ilusão utópica. Mas será que os ocidentais se comportariam da mesma forma se os refugiados tivessem a sua cor ou a sua fisionomia? O mundo entrou em choque com os ataques a Paris. No entanto, quando ataques da mesma natureza ocorrem todos os dias na Síria, o mundo permanece impávido e sereno. A conclusão que se tira é que para a lógica dos dominantes, divulgada pelos media, os genocídios não são um problema; são na verdade perfeitamente aceitáveis. Desde que, naturalmente, aconteçam do outro lado do mundo, longe dos olhos de quem está apenas habituado a ver o problema dos refugiados através do ecrã. E, mais importante ainda, longe dos olhos dos políticos habituados a lidar com o problema dentro da bolha de Bruxelas.

Relativamente ao projeto da União Europeia e nas palavras de Paulo Pisco, uma coisa é certa: “nada pode destruir uma civilização do exterior se ela não estiver já em processo de erosão interna”. Mas se os terroristas acelerarem este processo, ainda melhor para os ultranacionalistas. Terrorismo, a extrema-direita agradece!


Imagem: Jean-Marc Aspe – Manifestation 5 Avril 2014 Place du Capitol – Toulouse. Alguns direitos reservados.

 

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