Pai (operário) adotivo

Alberto Matos

O Dia do Pai, no calendário católico dia de São José Operário, vai muito além de fronteiras religiosas: o 19 de Março foi, muitos anos, feriado inscrito no Contrato Coletivo  de Trabalho dos Carpinteiros.

Vem a propósito lembrar as palavras do cardeal patriarca de Lisboa sobre o famigerado post dos “dois pais de Jesus”: “É uma falsidade, Deus é o verdadeiro Pai, José era o pai adotivo”.

Eu, ateu, me confesso espantado perante a sentença do senhor cardeal que desvaloriza o papel de José, santo da sua igreja – espero que não se trate de discriminação de classe contra um simples carpinteiro. É que o pai adotivo é o verdadeiro, o outro é o ausente. E fica ainda uma curiosidade teológica: quem será o pai biológico? Deus, a pomba ou o Espírito Santo?

Não venho aqui discutir o post sobre “os dois pais”. Se a ideia era explorar uma vitória civilizacional contra as discriminações, foi um tiro no pé e ofereceu publicidade extra aos vencidos, desde logo à igreja católica. Ser magnânimo é um ato de sabedoria, sobretudo depois das vitórias…

Quero sublinhar a defesa intransigente da liberdade de expressão e crítica religiosa ou anti-religiosa: “Je suis Charlie”, lembram-se? Aposto que se o tema fosse Maomé, por exemplo, o coro de protestos seria bem menor…

Apetece-me lembrar um dos últimos escritos de Lénine, sobre o materialismo militante:

“Engels sempre recomendou a difusão em massa da literatura ateísta do final do século XVIII (…), escritos ardentes, vivos, engenhosos, espirituosos que atacavam abertamente a padralhada reinante e mil vezes mais eficazes que muitos discursos áridos”.

De facto, nem é preciso inventar. Que tal reler Bocage ou, já do século XIX, “A velhice do padre eterno” de Guerra Junqueiro?

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