Intensificar as lutas dos movimentos sociais ajuda ou entrava o governo do PS?

João Vasconcelos

Esta é uma das questões centrais que se colocam na atual conjuntura de um governo do Partido Socialista suportado pelos partidos à sua esquerda. Dirão alguns – a intensificação da luta dos movimentos sociais no país só irá contribuir para apressar a queda do governo de António Costa! Dirão outros – essa luta só irá ajudar o atual governo!

Em que ficamos? Inclino-me para a segunda opção, embora com algumas condicionantes. Passo a explicar. A reativação e intensificação da ação dos movimentos sociais pelo país fora, desde que genuínos e com reivindicações de esquerda será um ótimo alimento para o atual governo – mesmo que contrariado em muitas posições. Obrigará Costa e o seu governo a satisfazer essas ou parte das reivindicações populares, orientando a sua ação mais para a esquerda – por um instinto de sobrevivência do PS e do próprio Costa. Se o governo afrontar a força dos movimentos sociais estará perdido e ficará entalado entre duas forças – os partidos à sua esquerda e a direita. E o ideal para Costa e o seu governo poderá ser o confronto de algumas forças sociais contra a Europa.

Mas poderemos ter uma outra situação e que levará à queda do governo com alguma facilidade – o aumento da conflitualidade social ou a ação de movimentos sociais de conotação mais de direita, ou instrumentalizados pelas forças ou organizações mais à direita – por exemplo as lutas de camionistas, de organizações de empresários e de produtores. Muitos pequenos empresários, agricultores, suinicultores, produtores de leite, etc., à beira da ruína, poderão ser instrumentalizados para ações radicais e de desespero. E mesmo que a sua ruína seja o resultado das políticas do governo anterior do PSD/CDS e da União Europeia, a tendência será o confronto com o atual governo.

Portanto o caminho a trilhar e sem demora deverá centrar-se na dinamização, reativação e intensificação das lutas dos movimentos sociais, naturalmente com reivindicações de esquerda – como a luta contra a pobreza e o desemprego, a luta pela defesa da Escola Pública (onde está o movimento de professores?), a luta pela defesa e melhoria do SNS, as lutas pela abolição das portagens na sex-scuts, a luta contra o diretório europeu e o Estado-fortaleza Merkeliano, as lutas contra a guerra, o racismo e solidariedade com os imigrantes, etc.

É nestes movimentos sociais que o Bloco de Esquerda se tem de empenhar e sem demora. E sabemos que o Bloco se movimenta, com facilidade, nos movimentos sociais – pois estes fazem parte da sua genética. Será meio caminho andado para o reforço do Bloco de Esquerda e uma espécie de seguro de vida para o atual governo – é evidente que tudo terá os seus limites. Se o movimento social enveredar pela via mais radical e progressista, não haverá governo com algumas conotações anti-austeritárias, como o de Costa, que aguente. Mas isto será outra etapa.

Nesta perspetiva e muito em breve será reativado o movimento contra as portagens no Algarve. Vamos ver até onde o movimento irá, não obstante existir uma certa desmobilização como aliás, acontece a nível nacional – o movimento social encontra-se paralisado, incluindo o movimento sindical, o que não deixa de causar apreensão. O estado de graça deste governo, que ainda perdura, e o efeito Tsipras/Grécia pesam e muito.

O estado de graça de António Costa e do governo, de certa forma chegou ao fim no Algarve, pelo menos para quem vive o calvário dos efeitos das portagens na região. Uma certa revolta vai surgindo, para já, nas redes sociais, pelo facto do PS ter chumbado a proposta do Bloco. Só se espera que as ondas de choque não nos atinjam, ou pelo menos que não façam muitas mossas, pois o Bloco é um dos suportes do governo e a direita é hábil em explorar esta situação. Veja-se a posição do PSD – absteve-se na votação.

A Comissão de Utentes da Via do Infante irá procurar radicalizar a suas posições e o PS irá ficar mal na fotografia. E todos sabem qual é a conotação de grande parte dos elementos da Comissão. Todos os seus membros (alguns fazendo parte de uma força política que suporta o atual governo) se encontram indignados com a atitude do PS, pois sobre as suas cabeças pesa a responsabilidade de uma luta muito dura e difícil de quase seis anos, sem interrupções. Por isso, a continuação da luta afigura-se como o melhor caminho a seguir e constituirá a garantia de fazer ceder o governo perante a evidência de várias situações que terá pela frente. E o Bloco de Esquerda, de uma maneira ou de outra, não poderá alhear-se, ou passar ao lado de todo este processo.


Imagem: foto de portimaoblokista.blogspot.pt.

 

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