A via confusionista

Luís Fazenda

Causou surpresa a presença de Alexis Tsipras numa reunião em Paris, promovida por Hollande, de chefes de estado e de governo social-democratas. Neste último sábado lá estiveram, para além do anfitrião e do primeiro-ministro francês Valls, os respetivos chefes de governo de Itália, Áustria, Portugal, Malta, o vice-chanceler alemão, o líder do partido trabalhista holandês, ao qual pertence o presidente do “eurogrupo” Dijsselbloem, o comissário Moscovici, o presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, a comissária da política externa Mogherini, o ministro dos assuntos externos do Luxemburgo. A reunião teria em vista preparar o próximo Conselho Europeu. Ou mais prosaicamente, levar a carta a Merkel. Aos media, Hollande disse que Tsipras de “certa maneira” fazia parte da família social-democrata. Contudo,o líder grego estava lá a título de observador, segundo a informação de Atenas.

Pergunta-se: será válida a iniciativa de Tsipras? A resposta só pode ser tempestuosa. Tsipras diz que quer fazer uma frente anti-austeridade: “as forças progressivas devem unir-se para lutar contra as políticas de austeridade e erigir um muro contra políticas económicas que preparam o terreno à extrema direita”. Certo, mas com aqueles que se puseram ao lado da Alemanha para enterrar a Grécia? Hollande e Renzi desprezaram o referendo grego, ajudaram Schaüble a cercar a praça Sintagma. Dali também não há esperança para Portugal, com o Moscovici de olho no plano B para impor um ajustamento extra aos lusitanos.

De facto, as questões da união económica e monetária e da crise social eram um adorno da reunião, sobre a quais se disse que deveria haver várias velocidades na eurolândia, vagamente isso é para Merkel fazer um sorriso amarelo. A questão central era o plano de “comprar” à Turquia a barreira de refugiados e migrantes, aliviando a Grécia da pressão que está a sofrer. Fica bem ao mesmo tempo clamar por direitos humanos em Ancara e afiançar-lhes com aspereza que nem pensem que a União Europeia vai dar livre circulação aos turcos. Tsipras foi ao Eliseu para apoiar a operação montada por Paris e Berlim.

Curiosamente, na véspera em Paris, o primeiro-ministro grego condenou a proposta de lei de trabalho que Hollande pretende oferecer aos patrões para despedir trabalhadores num ápice e terem horários de trabalho muito mais flexíveis. Tsipras afirmou-o num momento em que encontrava com Pierre Laurent, líder do Partido Comunista Francês. Os jornalistas confrontaram Hollande com essa posição do presidente do Syriza e François com cara de chateado desvalorizou a “coisa”. O pântano consiste em misturar as situações, obscurecer o quadro de conjunto, esconder objetivos atrás de diversões ou fazer sucessivamente de vítima, estar de braço dado com todos. Nesta via de confusão e cedência sem princípio, não se forma esquerda, nem qualquer tipo de socialismo. Reconheço que em situações de fraqueza pode ser necessário estabelecer pactos com o inimigo, com custos muito graves para as forças progressivas. Mas para quê depois da rendição? Aí já não há nada para salvaguardar. E ainda por cima elogiando o suposto amor ao progresso de falsos amigos.


 

Imagem: foto de Alexis Tsipras Intl. 12/03/2016.

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