Tapete Turco

Isabel Pires

Um dos temas de debate mais aceso nas últimas semanas é o Mecanismo de Apoio Europeu à Turquia. Não nos interessa aqui tanto os meandros técnicos deste mecanismo, mas sim o significado profundamente ideológico desta escolha.

A Europa enfrenta hoje uma das maiores crises humanitárias desde há muitas décadas. E a máscara de solidariedade e unidade entre os povos cai a cada dia que passa. Se,  por um lado, muito rapidamente o diretório encontra respostas rápidas para salvar mais um banco ou impor mais um programa de austeridade, por outro lado, mais lentamente consegue chegar a um consenso (que devia ser óbvio) sobre a ajuda imperativa a milhares e milhares de pessoas que fogem da guerra e da morte.

Individualmente, países vão fechando fronteiras ou adotando políticas discriminatórias para com um novo sujeito político, um novo inimigo externo: os que vêm de fora do “nosso” espaço, que nos vêm invadir e retirar aquilo que é “nosso” por direito. Esta narrativa está a ganhar caminho em alguns países, quanto mais o conservadorismo e o austeritarismo económico é mais forte. Em conjunto, de tempos a tempos é noticiado mais um programa de recolocação que vai mesmo resultar, mais um reforço militarista de fronteiras para combater o tráfico ilegal de pessoas, mais um programa de apoio aos refugiados sem consequência prática.

Não se chegando a nenhum resultado prática da suposta humanidade europeia, a solução afigurou-se a pior: varrer o problema para debaixo do tapete, e esse tapete é a Turquia. Do que falamos com este mecanismo é de dar dinheiro à Turquia para que, na prática, seja possível retirar a pressão que hoje esmaga as ilhas gregas para outro país, mais longe das fronteiras europeias.

Costuma dizer-se longe da vista, longe do coração e quase que se pode adaptar a esta “solução” encontrada pela União Europeia. Mas hoje facilmente o que está longe geograficamente rapidamente nos entra casa adentro através das notícias ou da internet. É absolutamente impossível fechar os olhos à verdadeira catástrofe humanitária que a guerra da Síria (mas também os resquícios da guerra do Iraque e do Afeganistão) provocou e dos milhares de homens, mulheres e crianças que diariamente atravessam quilómetros para chegar a um porto seguro.

O que a União Europeia lhes está a oferecer não é um porto seguro, mas sim uma nova barreira nas suas vidas, uma perpetuação da miséria. Devemos, então, questionar porquê. Porquê uma resposta deste tipo? A resposta é simples, mas cruel: a política da União Europeia está alicerçada não em valores de solidariedade, mas em valores de discriminação, de conflito, de conservadorismo que nos tolda a mente quando a situação é de crise humanitária. Não interessa a esta Europa resolver o problema porque não é percecionado como sendo dela.

Nada mais errado: o papel da Europa da perpetuação de conflitos armados é demasiado grande para se furtar a esta responsabilidade. O tapete turco não vai camuflar a crise humanitária, mas vai agravá-la. Ao mesmo tempo, as tensões entre países europeus não se vão desvanecer tão cedo. A sede por mais autonomia política em cada Estado-membro foi alimentada, difícil será saciá-la, especialmente quando o nacionalismo se sobrepõe a um ideal de solidariedade e de paz.


 

Imagem: Cartoon de Latuff.

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