Um perigo chamado Marcelo

Diogo Barbosa 

Após a tomada de posse do novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, é necessário analisar a forma como este presidente, que se quer demarcar de Cavaco Silva, tenta lavar a imagem da direita parecendo ser mais próximo do povo. Já muitas análises foram feitas sobre as máquinas partidárias, comunicação social e etc que montaram a campanha de Marcelo dizendo que era uma campanha do povo e sem partidos, todas essas farsas foram já desconstruídas e é necessário tentar vislumbrar aquela que será a ação do presidente recém-empossado.

Marcelo é um perigo como Presidente da República porque continua, do ponto de vista ideológico, na mesma linha que Cavaco Silva, e é mais perigoso que este porque é hábil e sabe como conquistar a simpatia da população em geral. Mas não nos deixemos enganar por esta simpatia, este presidente é o mesmo Marcelo que foi contra o aborto, que foi cúmplice de uma tentativa de golpe no Serviço Nacional de Saúde e que foi sempre, de uma forma ou outra, defendendo as políticas de austeridade que o anterior governo com tanto gosto aplicou.

Marcelo é um perigo por ser mais difícil de desconstruir que Cavaco Silva. Isso é notório em todo o dia da sua tomada de posse e dos poucos dias que se seguiram. O presidente que dispensa o aparato de segurança, que chega pelo seu próprio pé para ser empossado, que até na sua festa tem as crianças de várias escolas de Lisboa a saltitar de alegria à sua frente enquanto assiste a concertos que, de uma forma ou de outra, são transversais à sociedade portuguesa. Vejamos o exemplo de Pedro Abrunhosa que, aquando dos governos de Cavaco Silva, cada concerto seu era um comício anti-Cavaco, agora lá estava a saudar o novo presidente no dia da sua tomada de posse.

Até Fernando Medina passou de bobo da corte de António Costa para ser o bobo da corte de Marcelo no dia da sua tomada de posse. Obviamente entendemos as suas razões fortes: não quer perder Lisboa, nas autárquicas de 2017, nas quais vai ser pela primeira vez escrutinado pela população.

Mesmo nos poucos dias que se seguiram à tomada de posse Marcelo já quebra o protocolo, ainda nada fez e já é “o presidente mais fixe de sempre”, precisamente por isso, porque ainda nada fez.

Marcelo é um perigo porque já criou à sua volta a imagem de que é um presidente completamente diferente. Veremos o que dirá quando chegar à altura de se discutir a eutanásia de forma séria. Teremos um veto do presidente à possível garantia de liberdade individual acerca da própria morte? Será um presidente que estará do lado dos mais desfavorecidos se a conjuntura parlamentar atual assim o decidir? Estará ao lado das pessoas LGBT que ainda tantos direito precisam de ver reconhecidos? Estará ao lado dos trabalhadores quando estes tentarem ver reconhecidos os seus direitos ainda por reaver? Estará ao lado dos estudantes que por dificuldades económicas não consigam estudar? Em jeito de previsão de um mandato que ainda está no seu início: parece que não.

Marcelo já criou a sua capa, a sua nova face, de mergulhador no Tejo enquanto candidato a Presidente da Câmara de Lisboa a quebrador de protocolos enquanto Presidente da República continua a lá estar o mesmo Marcelo conservador e de direita, mas com uma nova cara. Os partidos à esquerda do PS não aplaudiram Marcelo na Assembleia da República. Foi desprezo? Desrespeito pelas instituições que representam a democracia no país? Não, não foi nada disso, foi coerência política. E ao não se levantarem, nem aplaudirem Marcelo representaram todos os portugueses e portuguesas que nele não votaram, respeitam o resultado da eleição, mas não votaram em Marcelo e não acreditam que ele seja um fator de mudança para nossa sociedade. É um novo combate ideológico, com um presidente que percebeu os erros do seu antecessor. E que não quer voltar a repeti-los. Marcelo sabe que esta vitória é importante para a sua direita. Por isso sim, Marcelo é um perigo e um perigo maior que Cavaco Silva. Estejamos alerta.


 

Imagem: Manuel Faisco – “O Professor Mente”. Alguns direitos reservados.

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