O design como mudança social

Alexandra Ribeiro

Quando se fala em design, muitas pessoas associam imediatamente à estética de um produto, mas essa é apenas uma das muitas funções do design. O trabalho do designer vai muito para além disso.

Desde a preocupação com a ergonomia, à qualidade de vida das pessoas, até à função por trás da forma, o design está profundamente entranhado no nosso dia-a-dia na nossa sociedade.

Como ferramenta para promover o bem-estar das pessoas, o design assume uma universalidade que abrange tod@s. Tem como pilar fundamental projetar as funções de produtos, serviços e espaços, com propostas de uso que atendem às mais diversas camadas sociais. Envolve não apenas produtos industriais, mas material gráfico e tantos outros caminhos quantos a imaginação permitir, por isso podemos pensar no design como uma ferramenta para a mudança social.

Os designers sabem muito bem utilizar as ferramentas de comunicação num mundo em que as imagens são um poderoso meio de disseminação. Eles são produtores capacitados de forma e conteúdo, podem usufruir dos conhecimentos profissionais para convencer uma pessoa a apaixonar-se por uma marca ou para evidenciar, destacar e denunciar algo importante e de interesse coletivo.

Para muitos, o design está essencialmente ligado ao mercado de consumo, algo oposto ao ativismo. Mas este é um pensamento errado. Há muito que o design anda de mãos dadas com as lutas sociais e se faz presente em manifestações de carácter político. É possível fazer-se ativismo também de modo indireto, principalmente quando se trata de intervir nas relações entre produtos, ambientes e pessoas.

Vale a pena lembrar que não é de hoje que o design se alia às causas politica e sociais. Em termos históricos, isto começou ainda no século 19 com o movimento Arts and Crafts, em Inglaterra, movimento que tinha por objetivo a reforma da sociedade. Parte dos seus criadores – artistas e designers – eram socialistas, que pensavam em construir uma sociedade mais justa ao reconfigurar as condições de trabalho e consumo.

A mesma aspiração também atravessou toda a história dos movimentos modernistas nas primeiras décadas do século 20. O que desencadeou esse processo foi a constatação de que o sistema de produção industrial e capitalista tende a gerar uma situação muito aguda de desigualdade e desequilíbrio sociais. Por este motivo, diversos movimentos e organizações que lutavam por mudanças sociais ou políticas descobriram no design gráfico um aliado para expressar o seu desejo de mudança.

Veja-se, nos últimos anos, as várias manifestações públicas que têm ocorrido pelo mundo. Cada uma com desejos, inquietações e reivindicações distintas. Nos Estados Unidos, o Occupy alertou para as atrocidades provocadas pelo sistema financeiro. Em Espanha, em 2011, o M-15, encheu as ruas com as questões da corrupção, da eliminação de direitos, da exclusão social e da austeridade. Nas manifestações dos vários movimentos sociais à procura da mudança, o design explora a construção de um significado, serve com a articulação de símbolos e significados que constroem uma história nova.

Nas ações do movimento Occupy, por exemplo, houve muita preocupação em construir um universo visual que pudesse expressar todo o clima que envolvia as manifestações. Foram projetados desde símbolos para as assembleias, a cartazes que promoviam as ações. Na maior parte das vezes, a produção e reprodução de todo esse conteúdo é um processo aberto e livre que possibilita a difusão de ideias e materiais para a promoção dos valores de quem está envolvido.

O design pode ser um grande facilitar dessas mudanças sociais, mas para isso é necessário entender quais os problemas políticos existentes, o que se quer construir e como estudar um conjunto de padrões, verdades e normas instituídas numa realidade que se vende como absoluta e imutável. Se se quer realmente mudar a sociedade é necessário que se tenha uma ideia bem projetada para se defender um modelo alternativo. Não basta desconstruir, é preciso construir algo novo, oferecer uma história própria, e é nisso que o design pode ajudar todos esses movimentos que têm procurado essas mudanças.

A projetar narrativas e a construir muito mais do que produtos, o designer ativista, agente livre, catalisador social e criador de novas realidades, usa o poder do design como um bem maior para a humanidade.


 

Imagem: Postal de divulgação para o Projeto Assédio Sexual. Quebrar Invisibilidades, UMAR. Ilustração: Alexandra Ribeiro.

Anúncios