Afinal faz todo o sentido! E é tão actual!

Almerinda Bento

Assumir a causa do feminismo, ser-se feminista, não é coisa com que se nasça. Não é algo adquirido. Pelo contrário e porque condicionados por vivermos numa sociedade patriarcal, é até encarado de forma pejorativa, displicente, quando não mesmo como algo desadequado do nosso tempo, fora de moda.

No entanto, a abordagem compreensiva da história da humanidade numa perspectiva não neutra, para além da análise da vida das pessoas, das suas oportunidades, dos seus bloqueios em função das tradições, das convenções e da estrutura social, permite uma leitura crítica que desvenda as diferenças e o desequilíbrio entre mulheres e homens. Porque a história que nos é transmitida está distorcida e praticamente só visibiliza e valoriza uma parte da humanidade, tornando essa visão natural e única, quando se fala de feminismo ou da necessidade de refazer a história dando protagonismo às protagonistas que ficaram na sombra ou no silêncio, há uma reacção de estranheza e até, muitas vezes, de rejeição.

O papel dos media e da escola nesta missão de mudança de perspectiva é fundamental. E pode ser avassaladora, porque vai abalar os fundamentos do patriarcado que vive do desequilíbrio de género e da dominação de um género sobre o outro. É famosa a frase de Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo” (1949) “On ne naît pas femme : on le devient.” (Não se nasce mulher; torna-se.) que tem a ver com o despertar da mulher para a sua condição na sociedade. Sabemos, no entanto, que quer os media quer a escola têm desempenhado um papel de reprodução do status quo e de transmissão de uma perspectiva imobilista patriarcal que acaba por ser assimilada e naturalizada pela maioria da população.

O que teriam pensado as pessoas daquele tempo da ideia lançada e aprovada em 1910, de se dedicar anualmente um dia às mulheres, a nível mundial, para se reflectir sobre elas e sobre os seus anseios e problemas? Clara Zetkin estava atenta ao que se estava a passar no mundo, em Inglaterra e nos Estados Unidos onde há décadas as mulheres começavam a organizar-se, lutavam, exigiam menos horas de trabalho, salários decentes, fim das desigualdades em comparação com os colegas da fábrica, direito a votar, direito à educação, direito a serem mais do que meras peças de uma engrenagem ou simples reprodutoras e cuidadoras. Essa ideia lançada na primeira década do século passado por Clara Zetkin foi acolhida em alguns países, mas demorou muito, mas muito tempo para ser assumida por muitos outros. E isso, fruto da situação política e do estado de desenvolvimento do movimento feminista em cada país, como sucedeu em Portugal que só em 1975 celebrou pela primeira vez em liberdade o dia 8 de Março, como Dia Internacional da Mulher. Aliás, só na década de 70 a Organização das Nações Unidas oficializou o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher.

Não é por acaso que nos períodos de crise e de ascenso das forças conservadoras e de direita, as organizações e movimentos feministas são reprimidos ou a sua actividade é dificultada ou obstaculizada. O que aconteceu em Portugal durante o período da ditadura é bem o exemplo disso e a compreensão do dia 8 de Março como dia de reflexão e luta pelos direitos específicos das mulheres nem sempre foi e é alcançada por muitas mulheres e também por muitos homens. Debaixo da luta por alcançar direitos básicos suprimidos pela ditadura salazarista, os direitos específicos das mulheres foram incompreendidos e muitas vezes catalogados de “burgueses”, de “marginais”, de não prioritários, de fora do tempo ou da agenda.

A grande luta após o 25 de Abril pelo direito ao divórcio dos casados pela igreja e que a concordata assinada entre o Estado português e o Vaticano tornava inviável foi um poderoso movimento de massas envolvendo homens e mulheres. Mas para depois ficou a luta pelo aborto, a luta pela participação paritária das mulheres na política, a luta contra a discriminação salarial, a luta pela criminalização da violência de género, a luta contra o assédio sexual, tantas lutas algumas ainda com um longo caminho pela frente e que têm uma marca de género muito forte.

E quando dizem que as mulheres já têm tudo, que a desigualdade já não existe, que o 8 de Março já não faz sentido, que é coisa do passado e de sociedades atrasadas, teremos de recordar que a velha máxima de para trabalho igual salário igual continua desfasada em 18% no nosso país, que o assédio moral e sexual maioritariamente vivido por mulheres continua envolto num pesado manto de silêncio, que as discriminações nos vários campos da vida se mantêm grotescas e inadmissíveis, que o sexismo patente nos media, na publicidade, na linguagem é persistente, que a violência de género tem contornos gravíssimos apesar das campanhas de sensibilização, que a maternidade continua a ser um factor de exclusão e discriminação, que a pobreza é um flagelo que tem maior incidência nas mulheres de todas as idades e nas famílias monoparentais.

Pois é. Afinal, comemorar o 8 de Março continua muito actual e faz todo o sentido.

Viva o 8 de Março. Viva o Dia Internacional das Mulheres.


Imagem: fotografia de Clara Zetkin (1857-1933) sobreposta a pormenor de Poster para o Dia das Mulheres, 8 de Março de 1914, Reivindicando o voto para as mulheres. Imagens em domínio público.

 

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