O filme IN TIME é perda de tempo?

Bruno Góis

O filme In Time (Andrew Niccol, 2011) recebeu duras observações na crítica cinematográfica, sobram razões para isso. Deixando a crítica artística para os especialistas[1], ficou-me o incómodo de ver frustradas ideias com potencial subversivo: o tempo/vida como moeda, a eternidade dos “ricos” como fruto do roubo.

“Eu não tenho tempo. Eu não tenho tempo para me preocupar como isto aconteceu. É o que é. Fomos geneticamente modificados para parar o envelhecimento aos 25 anos. O problema é que vivemos apenas mais um ano, a menos que possamos arranjar mais tempo. O tempo é agora a moeda. Nós ganhamos tempo e gastamos tempo. Os ricos podem viver para sempre, e o resto de nós? Eu só quero acordar com mais tempo na minha mão do que as horas do dia”.

Estas são as primeiras palavras do filme. É a voz do personagem principal, Will Salas, trabalhador e morador da periferia. Neste distópico ano de 2169, como em qualquer ficção científica, revela-se mais do presente do que do futuro. E é aqui que se perde o potencial da ideia de contrair no mesmo conceito o tempo/dinheiro/vida sugado a uns para luxo dos outros.

Lamentavelmente, nos 109 minutos do filme, o diretor Andrew Niccol não arranjou tempo para demonstrar de forma satisfatória como o tempo é roubado aos trabalhadores, que aliás ficam escondidos na insuficiente e enganadora categoria dos “pobres”. A inflação dos preços e as portagens para atravessar as zonas da periferia para o centro são apresentadas como uma justificação para a sucção de tempo/vida e, por fim, resultar num (neo)malthusiano controlo de população.

Os bancos e os banqueiros são apresentados como alvo, e via Robin dos Bosques é a solução apresentada para colapsar o sistema. Ficam por esclarecer e levar mais além as consequências da pergunta retórica/irónica da personagem Sylvia Weis: “Is it stealing if it’s already stolen?” (ou seja, roubar o tempo dos bancos não é roubar, porque o tempo aí acumulado é fruto do roubo).

Will Salas assaltante de bancos redistribui tempo como, antes, o seu falecido pai fazia com o tempo ganho em apostas/lutas. Uma via justiceira aparentemente anti-sistémica mas que não revela verdadeiramente os segredos do sistema. Will Salas enquanto trabalhador produz as barras que contêm o tempo e posteriormente recebe um salário de tempo, naturalmente inferior ao tempo produzido[2] (e a diferença é a mais-valia, o que faz a riqueza de uns à conta do roubo dos outros). O raciocínio acerca dessa exploração não é evidente para ninguém que veja o filme, a menos que já conheçam previamente a teoria da exploração, ou seja, da captura da mais-valia pelos detentores dos meios de produção.

Não creio que o autor seja marxista nem que pretendesse chegar a lugar algum. O subterfúgio da produção dos pequenos artefactos que contêm tempo não esclarece o processo de roubo da mais-valia. Esses artefactos funcionam como barras de ouro cujo valor é digital, e tudo se fica pelo fetiche d(ess)a mercadoria sem se perceber como nela se cristaliza o valor do trabalho.

O facto da mercadoria força de trabalho ser vendida (pelo trabalhador aos detentores dos meios de produção) por um valor que é sempre inferior ao valor produzido pela sua aplicação, esse é o tal “mistério” que o filme poderia revelar. Teria tido mesmo mais interesse explicar esse mistério através da produção de outras mercadorias que fossem elas próprias diretamente meios de vida ou meios de produção. Expectativas demasiado elevadas da minha parte para com um filme destes, bem sei.

Ver o filme In Time é perda de tempo? É tempo de entretenimento e cada qual gasta o seu como melhor entender. E num tempo em que a exploração vai aumentando também com a destruição dos limites do horário de trabalho talvez, apesar de tudo, possa o In Time servir de pretexto para regressarmos ao subversivo estudo da teoria do valor-trabalho.


 

Notas

[1] Dispenso-me até da crítica do insistente reincidente mal-amanhado ressurgimento do romance burguês, a mesma história repetida até à exaustão.

[2] Onde se lê tempo poderia ler-se valor.

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