E se Karl Marx nunca tivesse existido?

Bruno Góis

Alguma historiografia conservadora centra-se na biografia e na psicologia dos pensadores e dos líderes políticos. E Karl Marx não escapa a essas investidas, sejam elas intelectualmente grosseiras ou grosseiramente intelectuais.

Essas investigações psicológicas e biográficas até podem ter a sua utilidade, mas nunca quando resultam na unilateralização da realidade. É daí nasce muita ficção histórica descuidada. Simplificações que ignoram as lutas de classes, que escondem os interesses sociais em conflito.

Uma história realmente consciente interessa-se por questões tão relevantes que ainda que Marx nunca tivesse existido seriam igualmente estruturantes da realidade e da transformação social. Marx não inventou a luta de classes. Mas fez descobertas fundamentais acerca do papel da luta de classes como motor da história.

Em 1844, Marx leu o Esboço de uma Crítica da Economia Política de Friedrich Engels e constatou que, por caminhos diferentes, estavam a chegar às mesmas conclusões sobre a sociedade capitalista e a necessidade da sua superação.

Também estou em crer que mesmo sem a maçã de Newton, mais tarde ou mais cedo, algum primata superior seria atingido na cabeça pela lei da gravidade. O que para uns é um galo, para outros é uma ideia. Neste caso, foram dois génios que desenvolveram conjuntamente uma compreensão da realidade social.

Marx, que num episódico primeiro avistamento nem tinha gostado de Engels, acabou por encontrar neste um parceiro intelectual, um amigo e camarada de toda a vida. As biografias dizem que estiveram uns dez dias seguidos a conversar louca e longamente, assim que conheceram bem as ideias um do outro. Assim, começaram a grande aventura de desvendar os segredos da sociedade burguesa através da crítica da economia política.

Marx e Engels aprenderam a ideia comunista com o movimento operário. E quiseram levá-la mais além. As posições da investigação e ação política destes dois camaradas, como se adivinha facilmente nas polémicas com outros autores, era inicialmente minoritária no movimento dos trabalhadores. Qual a utilidade de uma ciência histórica da sociedade? Para quê essa “concepção materialista da história” que mais tarde seria chamada de “materialismo histórico”? E qual a necessidade de uma crítica da economia política?

O objetivo dos dois autores não era formar qualquer linhagem intelectual, era mesmo desvendar os segredos da exploração capitalista, as razões sociais que fundam o poder político, a dança das formas que espelham a realidade social, o metabolismo entre a humanidade e a natureza, as possibilidades da transformação social e internacional. Um saber prático, transformador. Um rigor comprometido com os interesses da classe trabalhadora, a classe que tudo produz e que é roubada, a classe que com a sua luta coletiva faz a mediação entre a libertação do indivíduo e a libertação da humanidade.

A leitura de Marx e Engels não deve ser um culto de textos sagrados ou de santos. Recusando qualquer simpatia pela doutrinação (mesmo que esta venha sob a capa de um suposto “socialismo científico”), devemos ler Marx, Engels e outros autores, autoras e combatentes do movimento socialista mundial como clássicos que contribuem para a análise da realidade social de hoje.

O uso da designação marxista[1] serve para indicar inequivocamente a pertença a uma continuidade histórica de luta e “crítica de tudo o que existe”. Vários autores se afirmam pós-marxistas, neocomunistas, e outros nomes derivados. São etiquetas que se renovam, vendem bestsellers, enchem prateleiras, e são arrumadas em caixas que acabam, por fim, nas caves do esquecimento. O que é preciso é pensamento articulado com a luta social.


Imagem: Pierre Wolfer- Karl Marx. Alguns direitos reservados.

Nota

[1] Digo isto consciente da ironia de o próprio Karl Marx ter criticado alguns seus contemporâneos que se auto-intitulavam marxistas – mas que, no caso, deturpavam as suas ideias.

Anúncios