Desemprego: uma questão de saúde

Filipa Menezes

Desde há muito que o desemprego e a precariedade estão na ordem do dia. No entanto, até que ponto entendemos as implicações destes factores?

Facilmente podemos dizer que as situações que afectam os rendimentos familiares têm implicação directa na saúde dos afectados e, geralmente, na de todo o agregado familiar.

Com o ano de 2015 a terminar com um desemprego de 12,2%, sem contar com tantos outros em empregos precários, estágios não remunerados e cursos de formação com bolsas anoréxicas, é pertinente avaliar as condições de saúde daqueles a que tantas portas batem quanto as que lhes vêem fechadas.

Uma das principais áreas afectadas é, sem dúvida, a alimentação. Curiosamente, vivemos numa sociedade em que uma alimentação saudável, apesar de toda a propaganda que a torna quase inquestionável, é cara. Cara a um nível em que uma família de classe média com um desempregado no agregado não a pode sustentar. Assim, muitas vezes a solução passa por apontar a mira económica a soluções mais em conta, mas também de qualidade mais questionável ­ nos casos em que tal ainda é possível. Em casos mais graves, vemos muitas vezes crianças a passar o dia com a refeição que comeram na escola e pais a passar fome para racionar o pouco que lhes oferecem de modo a chegar (minimamente) para todos.

A higiene é também uma das áreas mais afectadas, muitas vezes a primeira. A dificuldade em pagar contas de água e gás e a ideia geral de que os produtos de higiene pessoal são quase indulgências ou luxos contribuem para que esta seja descurada ao início das dificuldades. As roupas passam a fazer parte de um sentido unicamente prático, apenas para suprir a necessidade de agasalho. Perfumes são abolidos, seguidos de produtos deo e cremes. Passam depois a ser deixados para segundo plano os shampoos, primeiro dando lugar a marcas brancas e depois ao sabão. Este é, por vezes, o único sobrevivente.

A parca alimentação, aliada às dificuldades de higiene e à falta de capacidade para recorrer a apoio médico e medicamentos, têm um impacto directo na saúde física da pessoa.

A falta de saúde e a degradação da auto-­imagem, que se juntam a um tempo por preencher e à frustração de se sentir inútil, deixam o desempregado numa situação de saúde psicológica e emocional instável. Maior parte das vezes, estas pessoas acabam por não ter um apoio psicológico e psiquiátrico adequado, pois em muitos locais as redes de apoio gratuito são escassas.

Sem saídas à vista e sem nada a perder, alguns casos acabam mesmo em situações de suicídio ou no homicídio da antiga entidade patronal.

Todas estas situações criam um ciclo de desemprego: a degradação do indivíduo pela sua situação acaba, muitas vezes, por gerar a sua não­ aceitação em futuras propostas.

Há a necessidade imediata de prestar atenção à saúde dos desempregados. É importante o apoio não só alimentar, mas também em termos de produtos de higiene e medicamentos. É preciso não só olhar à saúde física, mas também à saúde mental e emocional. É preciso agir, antes de ser montado o ciclo do desemprego.


Imagem: foto de Paulete Matos publicada originalmente em esquerda.net.

Anúncios