Turnos: o impulso imanente da produção

Vítor Franco

“O impulso imanente da produção capitalista” foi como Marx chamou à vontade da burguesia de “apropriar trabalho durante todas as 24 horas do dia”. É que se para o trabalhador “é fisicamente impossível — as mesmas forças de trabalho seriam sugadas continuamente dia e noite — então é preciso, para vencer o impedimento físico, a alternância entre as forças de trabalho consumidas de dia e de noite” (…) o “sistema de turnos, esta economia de alternância”… [i]

Marx sensibilizou-se muito pela brutal exploração que os trabalhadores britânicos sofreram, em particular pelo sofrimento imposto às crianças e jovens trabalhando em turnos. Ele trouxe-nos a compreensão desta razão económica: a necessidade de rentabilizar o capital constante, a de multiplicar o tempo e a quantidade de produção de mais-valia diminuindo assim o custo desse capital constante, em razão inversa, pelas mercadorias produzidas. O que menos contava era a força de trabalho, na verdade quase escravizada.

No capitalismo moderno esse impulso imanente mantêm-se, não só porque a competição inter-capitalista necessita da inovação tecnológica permanente, muitas vezes conseguida a custos económicos elevados cuja rentabilidade é sustentada pela progressão “pró-geométrica” da produção e por custos de trabalho mais reduzidos aumentando a acumulação e concentração de capital enquanto se espalha desemprego e pobreza e ciclicamente crises de sobre-produção.

No capitalismo moderno, o trabalho noturno e por turnos adquire ainda especificidades de valor estratégico fundamentais ao funcionamento do regime ou da sociedade. Se a produção “normal” tendeu para a desregulação dos horários de trabalho e do banco de horas, estendendo o tempo e a submissão da vida do trabalhador aos interesses económicos imediatos do patrão, novas formas de trabalho surgiram. Os novos “impérios” da distribuição de bens de consumo usam imensos trabalhadores nocturnos, a produção e controlo da energia, os transportes terrestres e aéreos, a água, a saúde, sectores de serviços como limpezas ou até empresas multinacionais que atuam nas bolsas de valores… usam vastamente trabalho por turnos ou só trabalho nocturno.

Novas realidades precisam de novas respostas

Estes regimes de trabalho são muito mais penalizantes para a saúde dos trabalhadores. Malefícios como problemas de sono devido a dormir-se a horas incertas e com pior qualidade, digestivos pela alimentação se fazer a horas desfasados dos ritmos biológicos, aumento dos casos de cancro (nomeadamente da mama), aumento do consumo de estimulantes como o café e tabaco para “suportar melhor” o sono e o cansaço, stress, problemas emocionais, aumento do risco de obesidade e diabetes, interrupção do ciclo circadiano altera o metabolismo…

São mais frequentes os acidentes de viação após a saída do turno nocturno, é mais difícil a prática de atividade desportiva ou o acompanhamento da vida familiar, é superior a taxa de divórcios dos trabalhadores de turnos e é maior a dificuldade de participação social e política.

Em suma: a penosidade acrescida desta “economia de alternância” horária é comprovada pela ciência, pela medicina, pela evidente diminuição da qualidade de vida destes trabalhadores.

É necessário recolocar o dedo na ferida: são precisas iniciativas específicas que diminuam esta penosidade acrescida. Lutas de trabalhadores e medidas legislativas que priorizem as 35 horas para estes trabalhadores, a fiscalização séria das escalas de turnos pois é comum os trabalhadores serem enganados, reforço da vigilância da medicina no trabalho, caminhar para o fim dos bancos de horas, recolocar em lei o pagamento do trabalho noturno entre as 20h e as 07h com um acréscimo de 25% sobre o valor hora…

Muitos trabalhadores de turnos desempenham funções estratégicas e isso é fundamental para bons resultados na luta democrática e social. Os sindicatos, as CTs, a esquerda precisam de ser mais pro-ativas na defesa destes trabalhadores. Também neste aspecto concreto, são precisas ações de contra-ataque à ditadura que está imposta na esmagadora maioria das empresas, que impõe o medo sobre os trabalhadores e faz tábua rasa dos direitos constitucionais e até das más leis. Juntar forças em acção, em movimento e em alianças concretas!


Vítor Franco é membro da Comissão de Trabalhadores da EDP Distribuição.

Imagem: Cta web –Red South Reconstruction – Sep. 17, 2013Alguns direitos reservados.

Notas:

[i] Karl Marx – O Capital. Crítica da Economia Política. Livro I. Tomo I. Lisboa: edições Avante, 1990.

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