Filosofia na sociedade e educação

Pedro Celestino

A aprendizagem de filosofia no ensino obrigatório é uma questão sensível – e cada vez mais. Exposta ao risco de desaparecer devido à crescente mercantilização do ensino, que se volta para a criação de operários e técnicos capazes de alimentar a maquina capitalista nada se preocupa em garantir a independência e contributos intelectuais de quem devia educar. Mas devíamos fazer exactamente o contrario, lutar por uma aprendizagem com mais filosofia e cada vez mais cedo.

É possível advogar razões puramente pragmáticas, visto que segundo vários estudos o estudo de filosofia em criança, mesmo pouco, ajuda ao desenvolvimento cognitivo e analítico das mesmas, potenciando os restantes estudos e sucesso escolar. Aparentemente também é popular afirmar que estudantes de filosofia e as suas capacidades de analises e respostas criativas aos problemas são potenciais mais valias para cargos de gestão em empresas e afins. Mas mesmo que possa ser verdade, não são estas as razões para se incluir a filosofia no nosso sistema educativo.

A razão é dada pela forma como se pratica a filosofia e como esta contribui para o desenvolvimento não só pessoal, mas político e social. Se na definição mais conhecida de filosofia, esta é o amor pela sabedoria, a primeira coisa que a filosofia realmente nos ensina é que qualquer conhecimento parte de estarmos dispostos a questionar aquilo que nos é dado como um dado adquirido. Questionar o mundo e o porquê de este ser assim, da composição da sociedade, ou da formação da justiça e depois voltar a questionar as respostas obtidas. A segunda coisa que a filosofia nos ensina é que não há perguntas que deixemos por responder por mais simples ou errada que seja a resposta que criamos, mas respondemos, com respostas simples ou complexas, toda a pergunta é respondida e raramente é respondida com um “não sei”. Aliás, normalmente, o poder vigente tem respostas simples e incisivas, que tentam evitar novas perguntas recorrendo a entidades inquestionáveis como Deus ou os Mercados, aparentemente satisfatórias, para levar sempre à mesma conclusão, a de que estas são as melhores repostas e não vale a pena tentar procurar novas.

A pratica filosófica, é também marcadamente social, afinal o nascimento da filosofia ocorreu com os diálogos de Sócrates, na primeira sociedade democrática, na qual os cidadãos se podiam questionar e responder abertamente uns aos outros. Apresentando-nos uma segunda característica inerente à filosofia, a liberdade, na sua forma mais primária, a de se poder pensar por si próprio. Pensar, questionar e escolher uma resposta é o principio da pratica da liberdade, mesmo que nunca se possam revelar estes pensamentos este fundamento da liberdade existe na absoluta privacidade do mais intimo da pessoa. É um lugar comum afirmar que a filosofia pode fazer melhores cidadãos e cidadãs, e visto estar na base de escolhermos livremente e sem preconceitos as nossas respostas para a sociedade então é provavelmente verdade.

E de facto a nossa sociedade necessita que se questione o que lhe é dado como certo, sendo cada vez mais evidente que o sistema falhou em toda a linha, social, ecológica, justiça económica… Num mundo aparentemente à beira de inovações tecnológicas que podem revolucionar a produção e não só, potencialmente eliminando a necessidade de muitos tipos de trabalho que sustentam um capitalismo, alimentando um consumismo que o planeta não suporta e políticas que apenas estimulam a competitividade e nunca a cooperação. Repensar conceitos como o do trabalho, da propriedade privada, fronteiras, democracia, desenvolvimento ou necessidades básicas é urgente para que se possa progredir para uma sociedade mais justa. E estas são questões cujas respostas têm efeitos práticos e que se alcançam com a filosofia, por isso mesmo esta deve ser introduzida cedo na educação.

E esta já está à muito tempo em risco, tendo já sido disciplina obrigatória de todo o ensino secundário, passou a opcional no 12º, tendo recentemente perdido o exame (que servia de acesso a mais de 300 cursos) para finalmente ter sido reposto apenas no 11º (mesmo assim serve de acesso a cerca de 100 cursos) e sendo recorrente a ideia de a eliminar de todo. Mas apesar dos cortes e dificuldades económicas a sua importância parece ser reconhecida e resistir, já que neste últimos dois anos tem havido cursos onde as vagas estão cada vez mais preenchidas. Contrariando assim a visão instalada, algo muito próprio e comum da filosofia.


Imagem: Todd Lappin – Philosophers Club. Alguns direitos reservados.

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