Convergir nas formas do medo

Gonçalo Ferrão

As recentes notícias [da possibilidade de um] Brexit poderão fazer lembrar-nos a velha frase – tão amigos que nós éramos. No entanto, com mais atenção e rigor facilmente poderemos chegar a uma questão. Éramos, ou somos? Afinal, éramos amigos e agora já não somos tanto, pois temos diferenças inultrapassáveis, ou, éramos amigos e continuamos a sê-lo, pelas nossas semelhanças?

Na realidade, ao lermos, ouvirmos e vermos as notícias relativas ao Brexit, poderemos, impulsivamente, percecionar uma convulsão de contradições entre a Grã-Bretanha e a União Europeia, podendo aquela referendar sobre a sua permanência nesta última, ou não. Todavia a dialética suportada pelos protagonistas, também poderá levar-nos com relativa facilidade a uma reflexão se estes desencontros não são mais do que encenações para atingir fins comuns. Esgrimam-se unicamente simples manifestações de poder! Sim, pois Cameron confirma exatamente isso ao afirmar em Bruxelas que não vão estar ‘apenas os interesses particulares britânicos’ e que ‘vários pontos [levantados por Londres] são justificados e compreensíveis’. E mais adiante, Sobre a proposta para limitar os apoios aos trabalhadores comunitários, disse ser ‘evidente que cada país membro deve poder proteger o seu sistema social contra os abusos[1], confirmando que as diferenças que separam os tais interesses britânicos, não são mais do que as semelhanças com as posições dos dinamarqueses, em saquearem refugiados, ou a xenofobia dos alemães, quando do incidente de Colónia, ou o desvario dos franceses após os atentados de novembro último.

Arfando em correrias e urgências, uns reúnem com outros e outros com mais aqueles outros, simulando ufanas boas intenções para aplicarem medidas, evitando uma potencial saída, que a existir no espetro real seria mais das muitas caixinhas de Pandora desta União Europeia.

Ditadura da Identidade e expressão bacoca de nacionalismo, impingindo-nos tantas divergências para outras tantas convergências, mas sempre no sentido da destrutividade humana, da sociedade e sua qualidade de vida.

Na história da humanidade encontramos, com raríssimas exceções, sempre estas manifestações. Foram-no entre períodos de conflito e não foi diferente após a II Guerra Mundial. A paz formalmente estabelecida, as alianças e outras formas de acordos, deixaram sempre patentes manifestações e valências de poder de tendência à ditadura de nacionalidade e de nacionalismos exacerbados, principalmente de um povo, ou de uns povos, sobre os outros. A fundação da União Europeia, desde a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951), passando pela Comunidade Económica Europeia, até à atual versão após Maastricht leva-nos a esta mesma conclusão, pese embora os princípios humanistas que fundaram estas organizações.

Mas, diz o povo, “de boas intenções está o inferno cheio”. Há muito que Erich Fromm, sociólogo e filósofo alemão, um apaixonado estudioso de Marx, teorizava as várias fragilidades sociais que levam à destrutividade do ser humano e da própria sociedade.

Segundo Fromm as sociedades destrutivas são caracterizadas por muita violência interpessoal, por destrutividade, por agressão e por crueldade, tanto no seu interior como externamente, contra terceiros, pelo simples prazer de destruir, pela perversidade e pela traição, gerando uma vida de hostilidade, de tensão, de competição e de medo [2].

“Eu acredito que se o homem escolher o progresso pode encontrar uma nova unidade através do desenvolvimento de todas as suas forças humanas, que são produzidos em três orientações. Estas podem ser apresentadas separadamente ou em conjunto: biofilia[3] e amor pela natureza e pelo ser humano, independência e liberdade” [4].

“Hannah, está-me ouvindo? Onde quer que esteja, olhe para cima! Olhe para cima, Hannah! As nuvens estão subindo, o Sol está abrindo caminho! Estamos fora das trevas, indo em direção à luz! Estamos indo para um novo mundo; um mundo mais feliz, onde os homens vencerão a ganância, o ódio e a brutalidade. Olhe, Hannah”.[5]


Escrito a 18 de Fevereiro de 2016.

Imagem: Number 10 – PM meets Angela MerkelAlguns direitos reservados.

Notas

[1] In “O Publico”, 18-02-2016, pág. 2.

[2] Fromm, Erich -Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.

[3] O desejo de se afiliar a outras formas de vida.

[4] Fromm, Erich – On Being Human. London: The Continuum International Publishing Group Ltd, 1997. p. 101.

[5] Chaplin, Charles – O Grande Ditador. 1940. (Cena do final do filme, palavras do barbeiro para Hannah).

 

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