A crise, as oportunidades… e o Uganda

Moisés Ferreira

Foi em outubro do ano passado que a revista Der Spiegel publicou um artigo enaltecendo o empreendedorismo português. O milagre que tinha ajudado Portugal a sair da crise, dizia a revista, enquanto ilustrava o artigo com uma foto de dois amigos empreendedores que avançaram com um negócio: vender crepes e limonadas.

Ideias de fundo do artigo: 1) a crise gera oportunidades; 2) houve quem depois de ter ficado desempregado, permaneceu no país, meteu mãos à obra e conseguiu construir o seu próprio emprego; 3) este tipo de iniciativa individual transformou as cidades, o turismo e sustentou a economia nacional.

Como estas ideias sobre o empreendedorismo têm sido massificadas e como servem, regra geral, para fazer pensar a sociedade e a economia como um conjunto de ações individualizadas, vale a pena reter 3 factos sobre os milagres do empreendedorismo:

  1. O autoemprego criado por necessidade é um modelo típico de países com economia frágeis, altas taxas de desemprego, Estados fracos ou quase desprovidos de respostas sociais. Vejamos quais os 10 países com maior taxa de empreendedores por população ativa: Uganda, Tailândia, Brasil, Camarões, Vietname, Angola, Jamaica, Botswana, Chile e Filipinas.
  2. A esmagadora maioria destes casos de ‘empreendedorismo’ é o chamado empreendedorismo por necessidade. São pessoas que não têm emprego (e, em muitos casos, nenhum tipo de apoio social no desemprego) e que tentam encontrar uma forma qualquer de obter rendimentos, por parcos que sejam. Não são empreendedores por oportunidade, inovadores, desenvolvendo projetos tecnológicos, por exemplo, e/ou com alto valor acrescentado.
  3. Esta massificação do empreendedorismo por necessidade só mostra, por um lado, a fragilidade económica e social de um país e, por outro lado, contribui negativamente para a economia desse mesmo país. Uma tese de doutoramento apresentada na Universidade de Coimbra no final de 2015 conclui, aliás, que a promoção do empreendedorismo por necessidade – grande parte da base do autoemprego em Portugal – contribui para o crescimento anémico da economia nacional. Porquê? Porque este tipo de empreendedorismo está alavancado no desemprego, porque gera endividamento das pessoas que arriscam (e maioria das vezes não singram) e porque não permite a estabilização do tecido económico e produtivo, promovendo apenas um movimento constante de entrada e saída de empresas do mercado.

É uma realidade bem diferente daquela pintada pela Der Spiegel e, certamente, muito diferente dos discursos de quem ganha a vida a fazer discursos sobre coaching e empoderamento. Mas, na verdade, esta é que é a verdade por trás do maravilhoso mundo das oportunidades geradas pela crise.


Imagem:  Juan Garces – Accomplish 62811Alguns direitos reservados. Versão adaptada.

 

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