The Great Gatsby

Sara Azul Santos

“As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante.”

– Manifesto do Partido Comunista, secção IV[1]

A classe dominante em The Great Gatsby, representando uma era de consumismo em potencial, mudou para sempre o comportamento americano até aos dias de hoje.

The Great Gatsby, escrito em 1925, é o romance mais conhecido de F. Scott Fitzgerald. Representa o ambiente dos anos 20 americanos, surgindo no após I guerra mundial, em que as aspirações americanas, desenvolvidas pelo grande crescimento económico, transportam o reconhecimento americano para um reconhecimento monetário, em que a ostentação de poder é mais valiosa que os valores morais das personagens.

A credibilidade de Gatsby cai por terra assim que morre, mostrando a futilidade dos assíduos frequentadores das festas de Gatsby (que não aparecem ao funeral da personagem que dá nome a este romance). Esta mesma personagem busca o seu sonho na figura de Daisy, mas para descobrir que o sentimento desta última é movido pelo capital e pelo sentimento que esta vem a possuir pela nova figura de Gatsby (anteriormente Gatz). Gatsby comporta em si o mito do “Self Made Man” que constrói a sua fama e fortuna a partir do zero e que assim ascende na hierarquia social.

O ambiente em que ocorre a história de Gatsby e Nick Carraway é envolvido pelos pólos territoriais produzidos no pós guerra civil (1861-1865). Se por um lado temos um Oeste marcado pela produção agrária, do outro lado observa-se um Este industrializado e onde o mundo financeiro rola com superioridade.

Esta obra não é porém uma ode ao capitalismo, mas sim um anúncio à morte anunciada do sonho americano e do espaço que este vem a ocupar nas posteriores décadas do século XX.

Este “novel” de 47,094 palavras comprime assim vários símbolos do capitalismo em si. Para além do automóvel, ou da ostentação monetária de Gatsby em autorizar festas extravagantes, F. Scott Fitzgerald cria um imenso anúncio publicitário na zona intermédia do espaço da narrativa – valey of ashes[2]. Dr. T. J. Eckleburg são os olhos que aparecem no cartaz publicitário e que representa o consumismo e a cultura de massiva produção que se propaga no início do século XX.

A corrupção do sonho americano que começa em décadas anteriores chega à era da industrialização e à era do marketing. A propaganda muda a demanda e a produção, e os anos vinte apelam ao consumismo em massa por parte dos americanos (algo que viria a ser profundamente abalado com a queda da bolsa em Wall street em 1929, resultado da crise de sobre produção).

Para além do consumismo, outro tema que poderá ser visto através dos olhos azuis e penetrantes do cartaz do Dr. T. J. Eckleburg é o sentimento de controlo que seria explorado em vários romances nas décadas posteriores, como é o caso de 1984 (romance escrito por George Orwell de 1948, um romance distópico que critica as sociedades do pós- II guerra mundial).

A dissimulação marca também esta sociedade americana que foca as suas energias em criar uma persona. O “eu” de Gatsby é marcado pela futilidade e pela ânsia monetária construída à volta de um desejo à partida inocente – o de conquistar Daisy, personagem secundária neste romance de Fitzgerald. Gatsby é de origem pobre, mas recorre a todo o tipo de estratagemas para reclamar para si o estatuto de grande burguês (como Nick, o narrador da história, viria a constatar no desenrolar da narrativa). Um elemento indicador da vontade de Gatsby de se transferir para uma nova classe social é a mudança de nome do mesmo (uma vez que o nome inicial deste é Gatz).

No entanto, creio haver em Gatsby (como personagem) uma consciência crescente da inutilidade do sonho americano e nos benefícios que o dinheiro trará à sua vida sentimental. A solidão de Gatsby é visível na maneira como se encontra nas sombras nas suas próprias festas, focando todo o seu interesse numa conquista amorosa. É também de notar o facto de em várias ocasiões do romance, Gatsby se referir a Daisy com alusões a dinheiro:

“Her voice is full of money”[3].

Voltando ao mote deste texto, a ideia dominante em The Great Gatsby vem portanto de uma classe dominante, que gere tanto o poder económico de um pais em ascensão como as ideias que predominam nas massas. Gatsby é apenas mais um exemplo da ideia do homem feito a partir do nada, que domina a cultura americana e também a maior parte da cultura ocidental ao longo do resto do século.


 

Notas:

[1] Die herrschenden Ideen einer Zeit waren stets nur die Ideen der herrschenden Klasse

[2] N.-  Vale de cinzas

[3] N. – A sua voz está cheia de dinheiro

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