Os amigos da onça

Luís Fazenda

Quando Schäuble ameaça Portugal de excomunhão dos mercados e do “eurogrupo”, expõe o seu papel de ministro colonial e de cônsul do programa único atualmente aceite na UE, sejam quais forem os governos dos estados-membros. Isso é conhecido e constitui até a razão do necessário combate dos povos a esse poder austeritário da exploração capitalista e ao domínio europeu da burguesia conservadora. Aí, infelizmente, não há novidade. O processo Syriza não tinha deixado dúvidas sobre o espaço para heresias.
O que é marcante na conjuntura é ser Passos Coelho a utilizar como discurso a chantagem dos mercados e os humores do eurogrupo e de toda a caranguejola europeia para atacar o governo de António Costa. Houve quem dissesse que Passos Coelho está a ser antipatriótico. Falso. O entronizado líder do PSD está a defender a bem portuguesa burguesia nacional. Essa débil burguesia sobrante da invasão do capital estrangeiro que julga que Berlim lhes pode proteger as costas e o poder doméstico nas procelas que aí vêm associadas à dívida externa, e às turbulências da geopolítica sangrenta do Mediterrâneo.
Pode afirmar-se que Schäuble pôs António Costa em regime probatório e Passos tira partido de um primeiro-ministro condicionado. O ministro alemão e o ex-primeiro-ministro português têm ambos o mesmo programa político e até se cosem pelas mesmas linhas. Passos Coelho não tem rebuço em defender cortes nos rendimentos populares, ele julga que no fim o que conta é a chantagem europeia para acertar os votos. António Costa, apesar das tímidas diferenças com as políticas orçamentais acreditadas em Berlim, fiou-se nisso mesmo, serem tímidas e distantes da rebeldia esmagada de Atenas. Costa subestimou que a questão não é apenas do défice e do teto fiscal, é a dissidência que Schäuble não tolera. Por isso,os ingleses estão a ver se se põem a banhos.
Passos Coelho defende os “investidores”, pouco dados a pátrias, e está a jogar com uma carta a mais: a expetativa de que Rajoy vença nas cortes espanholas e isole a “geringonça” portuguesa. A geringonça pode dar desprazer a todos os Vasco Pulido Valente, incluindo Paulo Portas, mas representa, pelo tempo que for, outros interesses de classe mais próximos do povo. Essa insuportável leveza da geringonça desmascara porfiadamente os amigos da onça.


Imagem: PPE – Pedro Passos CoelhoAlguns direitos reservados.

 

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