Escravatura qualificada

Diogo Barbosa

A geração que se encontra entre os 25 e os 30 e muitos anos de idade é a geração que sofre na pele os novos modelos de escravatura.

Vamos elencar algumas dessas novas formas de trabalho que pode ser considerado como uma nova forma de escravatura. No caso das pessoas licenciadas, estas são muitas vezes colocadas em estágios curriculares onde efetuam trabalho gratuito e muitas das vezes ainda pagam propinas para poderem ter o direito à realização desse mesmo estágio. Situações como esta são apenas um breve descortinar das faltas de condições de trabalho para toda esta geração que entre escolas, hospitais, câmaras municipais e as mais variadas empresas privadas prestam um serviço para o qual, e no caso concreto dos estágios curriculares, ainda são obrigadas a pagar uma propina que por si só já é elevada

Este tipo de escravatura qualificada é um flagelo contra a perspetiva da construção de uma sociedade igualitária, ou pelo menos digna, por duas razões muito simples. Em primeiro lugar parte-se de um princípio de “elitização” da escravatura, a pessoa tem a possibilidade de despender um ano da sua vida a trabalhar gratuitamente e a dar um contributo financeiro para ter esse direito – trabalhar gratuitamente parece ser um privilégio. Em segundo lugar, a realização de tais estágios curriculares não garante a continuidade da pessoa nessa profissão, sendo relegada posteriormente para estágios do IEFP com remunerações bastante baixas. E isto depois de anos a pagar propinas cada vez mais elevadas para a sua formação.

O nosso sistema educacional não deveria de todo permitir que, no decorrer da sua formação, a pessoa seja obrigada a trabalhar gratuitamente e ainda pagar uma propina. Isto torna este tipo de escravatura ainda mais perversa, pois chegamos ao ponto, em pleno século XXI, em que quem tem qualificações ainda é obrigado a custear o seu trabalho. Deveríamos portanto criar um sistema de oportunidades profissionais, não só no caso das pessoas qualificadas em universidades ou politécnicos, mas também no caso dos cursos técnico profissionais, em que existisse um sistema remuneratório justo e com vista à progressão na carreira. A perspetiva de uma carreira praticamente deixou de existir, mas não podemos abdicar de lutar por ela.

Acresce outra situação. Quão comum é chegarmos a um café, a um supermercado, a qualquer sítio comum das nossas vidas e a pessoa que nos atende é qualificada a nível profissional ou superior para outras funções? Tratando-se de alguém que, muitas vezes, passou por todo o processo de ainda ter de pagar para iniciar funções na área para a qual se formou, para ter depois um contrato precário, provavelmente renovável mensalmente, ou na melhor das hipóteses com contratos de meio ano. E numa grande parte das situações nem contrato existe, estando a pessoa à mercê da boa vontade do mecenas que lhe deu a oportunidade para trabalhar, já que no mercado está tão difícil…

Assistimos assim a um novo sistema em que ser escravo é natural, em que o determinismo de não termos o direito à nossa profissão, de não podermos sonhar com o nosso futuro é tão intrínseco que já assumimos de vez que nada podemos esperar de nós nem da nossa sociedade. A geração da escravatura qualificada é mesmo a qualificada que este país já viu. E mesmo assim é a que trabalha de graça, que não pode almejar a ter um futuro, a ter uma reforma digna. É a geração que sabe fazer e sonha fazer tudo, mas que nada faz porque tem as mãos atadas primeiro pelo aumento constante das propinas, depois pela liberalização do mercado de trabalho, pela não igualdade de oportunidades, pela criação do próprio sistema público de trabalho escravo baseado em estágios e programas de voluntariado.

É um sistema podre este que os novos escravos têm de contribuir para mudar. O trabalho com dignidade é um direito que demorou muito tempo a conquistar pelas gerações anteriores. Esta nova geração que beneficiou inicialmente dessas lutas e dessas conquistas tem o dever de reconquistar o trabalho com dignidade, tem de rejeitar as novas formas de escravatura e de se insurgir contra o destino fatalista que lhe querem impor.


Imagem: National Museum of American History – Slave shackles. Alguns direitos reservados.

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