Só o voto é muito pouco

Vítor Ruivo

Vivemos recentemente um período de quase dois anos em que, com a realização das eleições legislativas e presidenciais e as respectivas pré-campanhas, a atenção partidária e de grande parte da opinião pública se concentrou na questão do voto.

As sempre presentes sondagens continuam a pressionar para que essa questão permaneça dominante na táctica e na acção política/partidária tanto à direita como à esquerda.

Foi natural que em todo aquele período a própria “esquerda radical” fosse intensificando o apelo ao voto e realçando a sua importância para os trabalhadores e o povo forçarem uma mudança de política. Foram muitos e variados os argumentos, desde a inutilidade da abstenção até às declarações de que o voto é a expressão maior do exercício da democracia, o acto em que cada um expressa a sua vontade e as suas esperanças, em que não deixa para outros o seu poder de decisão, o acto com o qual cada um torna possível a mudança de políticas…

No entanto, os resultados das eleições foram bastante negativos tendo em conta os objectivos pretendidos. Apenas a magnífica votação do Bloco nas legislativas (e de Marisa Matias nas presidenciais) associada ao facto de que o conjunto dos deputados à esquerda foi superior aos da direita permitiram uma manobra táctica inédita por parte de todos aqueles partidos, levando à formação do actual governo do PS.

Contudo, mesmo a incerta possibilidade deste governo se manter em funções durante o resto do mandato não parece permitir muito mais do que a atenuação da austeridade e a travagem – reversão ou suspensão temporária é o dilema – das medidas de reconversão capitalista (privatizações, desmantelamento do estado social e da legislação laboral, etc.) decididas pelo governo PSD/CDS que acentuou em muito as que já vinham de trás.

É certo que esta atenuação e travagem são bastante positivas face ao descalabro em que continuaríamos se o governo permanecesse nas mãos das direitas. E por isso é tão importante reforçar a luta pela aplicação das medidas acordadas, procurando o seu alargamento com a determinação de que “isto é apenas o começo de um caminho novo”…

Mas sabemos como, nas actuais circunstâncias económicas, sociais e políticas em Portugal, condicionadas, para não dizer completamente dominadas, pelas imposições da UE e da sua parceria com os EUA, este “começo” é tão rudimentar, tão limitado e periclitante. Tão distante das tarefas indispensáveis para a superação do poder capitalista e do seu modo de produção cada vez mais globalizado, desigual e destrutivo. Superação que, para ser definitiva, terá de passar, inevitavelmente, pelo fim dos três pilares que sustentam o actual período histórico da sociedade humana – o capital, o Estado e o trabalho alienado.

A magnitude das tarefas em causa e a enorme distância (qualitativa muito mais do que temporal) a que se encontram das tímidas acções de agora pela aplicação dos acordos com o PS é a mesma que medeia entre fazer do voto o principal instrumento de luta da classe trabalhadora pela sua emancipação e todos os outros meios indispensáveis para que tal objectivo seja alguma vez alcançável.

No enaltecer unilateral do voto e da sua importância, mesmo que mitigado pelas reivindicações e concessões benevolentes em torno da “democracia participativa”, onde fica o espaço para a crítica à subversão e alienação da vontade popular pelos poderosos monopólios e pelos seus media? Onde fica a crítica aos limites da democracia representativa e das suas instituições, a necessidade de ir mais além na prática da democracia directa e de conquistar a democracia substantiva e auto determinada pela Humanidade livre, no caminho da extinção do Estado?

Claro que são recorrentes as declarações quanto à importância da valorização e ligação às lutas sindicais, do apoio e dinamização dos diversos movimentos sociais, de organizar e dar continuidade à intervenção militante nas lutas todas, de não sobrevalorizar o imediato interesse eleitoral e partidário nem a acção parlamentar pondo-as ao serviço destas lutas…

Mas se, mesmo na passagem à prática daquelas declarações, a “esquerda radical” continua a ser tão deficitária, qual não será o défice para aquelas tarefas de largo voo, quando está ainda tão ausente, não apenas os esboços da sua experimentação, mas o próprio começo (ou recomeço) do questionamento e necessidade de tais tarefas?


 

Imagem: Ale – Occupy London. Alguns direitos reservados.

 

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