Terrorismo, psicose e estados de guerra

Celeste Santos

As medidas austeritárias fazem aumentar os níveis de pobreza e a desconfiança entre grupos populacionais diferentes, levando a um ressurgir de novos fascismos, maior intolerância e xenofobia.

Os atos de violência terrorista a que temos assistido nos últimos anos em alguns países da Europa surpreenderam-nos a todos, europeus, pelo grau de destruição e de sofrimento que causaram.

Estes acontecimentos não são habituais, é certo, neste continente, mas são quase banais, com o perdão pelo uso do vocábulo, noutros continentes como Ásia ou África, onde diariamente morrem assassinadas de forma violenta dezenas de pessoas em ataques bombistas indiscriminados.

A Europa acordou para uma realidade que só acontecia lá longe, na terra dos outros. Um duro acordar, sem dúvida. O que mais surpreende nestes ataques suicidas indiscriminados é que os mesmos foram efetuados por indivíduos muito jovens, nascidos e educados no continente europeu…

Então, como é possível? O que é que falhou? Muitas são as questões para as quais deveríamos encontrar respostas…

O que primeiro falha, parece-me evidente, são as políticas de educação que deveriam ser o primeiro instrumento de integração e o suporte para uma formação de qualidade com vista a uma saída laboral digna.

Em qualquer sociedade quando é negada aos indivíduos a oportunidade de serem agentes construtores dessa mesma sociedade corre-se o risco da criação de “apartheids” sociais e culturais, encobertos, nas zonas periféricas de grandes cidades, tornando estas áreas propícias a que indivíduos fanáticos e sem escrúpulos captem jovens para as suas “causas” românticas de libertadores dessa mesma sociedade.

Os poderes instituídos, cegos aos seus próprios erros e falhas, optam então por exacerbar o fenómeno, criando uma verdadeira psicose de medo e insegurança em todos os cidadãos e cidadãs, levando-os a desconfiar e temer todos e todas ao seu redor, seja o vizinho do lado que é um pouco mais moreno ou o vendedor da loja do canto pois usa barbas ou veste de forma diferente.

Enquanto a população vive atordoada entre o choque causado pelo ato violento e a psicose do medo veiculado e exacerbado pelas autoridades e pelos meios de comunicação, o poder instalado vai passando leis restritivas e limitadoras da liberdade e da privacidade individuais, em nome do bem comum e da segurança de todos e todas, sem que a grande maioria da população se aperceba que está a abdicar de livre vontade dos seus direitos e garantias individuais.

Da mesma forma, essa mesma população vai aceitando todas as medidas restritivas económicas em nome de uma austeridade perpétua e sem alternativa, segundo esse mesmo poder instalado.

Estas medidas austeritárias fazem aumentar os níveis de pobreza e a desconfiança entre grupos populacionais diferentes, levando a um ressurgir de novos fascismos, maior intolerância e xenofobia.

Em nome do bem comum e da segurança de todos e de todas, são instituídos estados de emergência, primeiro transitórios e temporários, que permitem às autoridades a invasão da privacidade individual e a restrição de atividades consagradas nas constituições. Estes estados de emergência, que nada mais são do que estados de guerra legalizados, começam por ser temporários, depois são renovados por períodos mais longos, acabando por eventualmente se tornarem a regra e a norma quotidianas na vida de todos e de todas.

Na história recente da humanidade foram muitos os estados que utilizando medidas de exceção temporárias as tornaram, com o tempo, permanentes, levando à legalização de genocídios e ao abuso de todos os direitos humanos mais básicos em nome de um qualquer bem comum e da superioridade cultural de uns povos sobre outros.

É um caminho perigoso que já trilhámos, mas é também um caminho muito apetecível para alguns setores das nossas sociedades que continuam a desejar o controle absoluto sobre os seus cidadãos e cidadãs.

Para combater fanatismos e intolerância a solução tem de ser sempre mais e melhor educação e menos repressão.


Imagem: Imagem de um mural atribuído à controversa street artist Princess Hijab. Esta fotografia é usada no site do Coletivo contra a Islamofobia em França.

 

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