Ilusão, manipulação ou contradição

Gonçalo Ferrão

Ilusão, manipulação e contradição são termos que no léxico político andam normalmente de mãos dadas.

Ilusão, do latim – illusióne – significa “enganar” ou “troçar de”. Manipulação, no sentido social, significa tratar uma pessoa ou grupo de pessoas como se fossem objetos, a fim de dominá-los facilmente, significando também rebaixamento, aviltamento. Já contradição, do latim contradictio, vai ao encontro de resposta, objeção, contra-argumento, falar contra.

Mas tudo isto vem a propósito de quê? Vem a propósito do Orçamento de Estado (OE) para 2016.

Este Orçamento é conhecido e reafirmado ser um orçamento do Governo do PS. É uma verdade e um facto! Mas será assim, para todos portugueses para todas as portuguesas? Não! A esmagadora maioria das pessoas entende este orçamento como o orçamento da Esquerda, assim como entende o Governo do PS, como o governo da esquerda.

A manipulação dos vários agentes de influência da opinião pública, comentadores, comunicação social, ex-políticos agora na sombra, mas julgados como responsáveis e doutos fazedores de opinião, etc., assim o fazem entender.

É preciso vincar a ideia que o OE, apesar do apoio parlamentar da Esquerda, não é e jamais seria o orçamento da esquerda à esquerda do PS. Mas também é necessário realçar que a contradição de, simultaneamente, navegar nas ondas desta Europa e ao mesmo tempo aprovar e executar um orçamento que vá totalmente ao encontro da melhoria das condições de vida do povo português é uma pura ilusão, no atual contexto europeu.

Com verdade e a confiança de esquerda, dizemos que este OE não é bom e é pior do que o primeiro esboço enviado para Bruxelas. Depois de ter recuado quatro vezes no défice – de 2,8 para 2,6; de 2,6 para 2,4 e de 2,4 para, finalmente 2,2% do PIB – . o pacote fiscal foi agravado em cerca de 200 milhões de euros, que no fundo, de uma maneira ou de outra, vai ser pago por todos e todas nós.

Um orçamento de Estado é um poder. É o instrumento económico de poder, onde os grandes da Europa, fazem uma constante declaração de guerra aos povos, impondo-se pelo rebaixar e avilte destes, salvaguardando os interesses do grande capital, sem sentido humanista e sem solidariedade dos princípios fundamentais dessa Europa inicialmente gerada no ideal social, na liberdade, na fraternidade, na justiça e na paz. Pura Ilusão!

Wright já definia quatro espécies de guerra: defensiva, social, económica e política. Por guerra defensiva, referia-se à prática dos povos que não acusam as guerras nos seus costumes, lutando apenas se efetivamente atacados. A social, para quem a guerra não é, aparentemente, muito destrutiva para a vida, mas mantém a manipulação constante desta. As guerras económicas e políticas referem-se aos povos que promovem a guerra a fim de conseguir mulheres, escravos, matérias-primas e terra e, além disso, com o intuito de manter uma dinastia ou classe dominante. Esta última é a que prevalece nos nossos dias. É a luta de classes!

A força das potências e das classes dominantes continua a manifestar-se no atual OE mas ainda assim abre uma janela de esperança. Termo que anda sempre a par com ilusão. Contradição? Não, não é!

Embora não se saiba e seja muito cedo para prever as reais consequências económicas para a dinamização da economia, por parte de alguns efeitos fiscais, no horizonte social e nos rendimentos das famílias, existe uma real vontade em aliviar o esforço que estas até então faziam.

Dos acordos realizados com Bloco de Esquerda, PCP e Verdes, vemos neste orçamento o essencial do estabelecido. Medidas como: as deduções no IRS por ascendentes e descendentes; a redução da sobretaxa do IRS; o IVA da restauração; o fim das taxas moderadoras; o aumento do salário mínimo; a reposição de salários na Função Pública e a reposição das 35 horas de trabalho semanal; o descongelamento do complemento de pensões; etc., etc., etc.; não são o ideal de esquerda, longe disso, mas é uma lufada de ar fresco. Não nos aliviando de todo, antes pelo contrário, obriga-nos a estar cada vez mais atentos, reivindicativos e críticos dos mandos e desmandos da Europa, exigindo ao PS o cumprimento dos acordos e lutando por mais avanços.

É cada vez mais importante a luta, a mobilização de massas, a unidade e a constante prevenção para a ilusão, para a manipulação.

Sejamos nós a voz do contraditório.

 


Imagem: Kevin Trotman – Caution: Magician Ahead!Alguns direitos reservados.

 

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