Polónia: a escalada do autoritarismo

Rafael Boulair

Os últimos anos, marcados pela austeridade, transformaram em profundidade o caráter dos governos europeus. Se no sul da Europa o ultraliberalismo abriu espaço à criação de um bloco politico anti austeridade e progressista e no norte trouxe o crescimento da extrema-direita, no leste tem favorecido a chegada ao poder de governos anti democráticos e autoritários.

O caso húngaro era já sintomático desta nova realidade, revelando uma mutação sem precedentes da direita (não fosse o principal partido do governo húngaro membro do PPE), e da sua política de alianças (o aliado do governo húngaro, o Jobbik, é um partido abertamente fascista).

Nos últimos meses, duas eleições tiveram lugar e fizeram da Polónia o segundo país a seguir a via sinuosa da repressão das liberdades individuais. Depois de eleger um presidente do partido PIS, de extrema-direita (pertencente ao grupo dos Conservadores e Reformistas no Parlamento Europeu), as legislativas de outubro passado puseram de novo no poder um governo desse partido, numas eleições que se tornaram históricas pelas piores razoes: doravante não haverá um único deputado de esquerda no parlamento polaco. Trata se de um desastre histórico que só lograremos compreender recuando a um passado das derrotas históricas, dos becos sem saída, das incertezas mais do que certas e das interrogações mais ousadas.

Como notou a historiadora Raquel Varela, no desastre húngaro estão presentes os traços dos imperdoáveis erros que a história da esquerda e do movimento operário não nos podem fazer esquecer. Se a invasão do país pelo exército soviético não tivesse acontecido, talvez o revés das forças socialistas não tivesse sido tão grande, tão profundo, tão irremediável. Ora quando olhamos para a Polónia, depressa nos lembramos da fraude que constituiu o Solidariedade, que chegado ao governo, se desfez dos seus compromissos com os trabalhadores que jurava representar, para aplicar escrupulosamente um programa neoliberal do pilotado pelo FMI.

Se as incoerências do governo autoproclamado socialista destruíram o sonho marxista no país, a capitulação do Solidariedade conseguiu minar o que restava da esquerda. O partido, outrora sindicato, tornou-se, de eleição para eleição, cada vez mais marginal, deixando o caminho livre para a instalação de um sistema bipartidista entre dois partidos de direita: o partido Plataforma cívica, de cariz neoliberal, e o PIS, ultraconservador.

As memórias do último governo do PIS não são boas. Em 2004, Lech Kaczyński chegou a Presidente da república e o seu irmão gémeo, Jarosław, a primeiro-ministro. Durante três anos o pais assistiu, impávido, a uma sucessão de medidas obscurantistas e ultraconservadoras impulsionadas por esta parelha, como a proibição dos homossexuais serem professores, uma perseguição tremenda aos suspeitos de ligações com a antigo regime comunista ou ainda a sinistra proposta de quarenta e seis deputados do PIS para que Jesus Cristo fosse proclamado Rei da Polonia.

Em 2007, virou-se a pagina dessa política, mas seguiu-se lhe um executivo ultraliberal, dirigido pela Plataforma Cívica, do atual presidente do Conselho Europeu. Aumentou-se a idade da reforma para os 67 anos e atacaram-se os rendimentos do trabalho.

Agora que o PIS regressou ao poder, o líder do partido, precisamente Jarosław Kaczyński, é considerado o verdadeiro lidera maioria, do qual a primeira-ministra recém-sufragada Beata Szydło é um mero fantoche. As ofensas à democracia, ao bom senso e à dignidade popular não se fizeram, portanto, esperar. Dois meses depois de chegar ao governo, pôs-se fim à liberdade de imprensa e os dois principais canais públicos foram colocados sob tutela: este é, contudo, apenas um «primeiro passo» – avisa o governo.

Numa declaração tão assustadora como impensável, o novo ministro dos negócios estrangeiros afirmou, a propósito do último governo, que, como vimos, era ultraliberal e pro austeridade: «Queremos simplesmente curar o nosso país de algumas doenças. O governo anterior seguiu um certo conceito político de esquerda, como se o mundo devesse ir apenas num sentido – segundo o modelo marxista – uma nova mistura de culturas e raças, um mundo de ciclistas e vegetarianos, que só se interessa por energias renováveis e se opõe a todas as religiões. Isto não tem nada a ver com as raízes polacas tradicionais». Ficamos esclarecidos sobre a essência e as intenções do novo governo. A reação europeia é igualmente preocupante, porque hipócrita e diferente consoante os países em questão; ignorou a questão húngara e agora finge preocupar-se, tendo em conta o peso político e estratégico da Polónia.

Perante uma União Europeia que envergonha a democracia, como mostra a forma como lida com a chegada de refugiados e com a fiscalização dos orçamentos, que serve apenas como instrumento de coerção política, de opressão ideológica – uma autentica prisão dos povos, o combate contra o autoritarismo que cresce a passos largos no Leste do continente tem de ser assumido pela esquerda.

Em países como a Polónia, em que a social-democracia tradicional esta em ruínas, ou como na Áustria, onde esta assume um programa abertamente liberal, a reconstrução de um bloco progressista, emancipatório, que articule a resistência da classe trabalhadora, energia disponível de uma nova geração contestatária e abra caminho para uma saída à esquerda da crise económica é a única forma de evitar um desastre anunciado, que seria a continuidade destas políticas num cenário de quase total ausência de vozes críticas e de luta socialista.

 


Imagem: Piotr Drabik – Jarosław KaczyńskiAlguns direitos reservados.

 

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