Ensino Superior: aprender para que(m)?

Filipa Menezes

Milhares de jovens ingressam todos os anos no ensino superior público. Com que expectativa? Com que condições? E sobretudo: para que(m)?

Ao ser admitido na faculdade, o estudante exala uma alegria que é rapidamente esmagada pelos destroços de uma educação pública com falhas de financiamento e de um futuro pouco sorridente em perspectivas. Pouco depois de se ambientar, começa a elencar os problemas que encontra, e que facilmente o fariam desistir. O que o mantém de pé é a possibilidade de um bom emprego, de uma família, talvez até de um carro e casa própria

Mas o que encontram os estudantes nas faculdades públicas que os aterroriza tanto?

Comecemos pelas condições de segurança e saúde. Climatização deficiente que leva muitos alunos à doença, segurança precária dos edifícios (lembremos o caso da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, cujo pátio da cantina e cisterna AINDA se encontram em perigo de desabamento e vedados, passado cerca de um ano) e falta de técnicos ou tutores especializados em espaços de desenvolvimento autónomo, como os laboratórios e oficinas, que podem pôr em causa a segurança dos alunos.

Os problemas financeiros das faculdades levam também, muitas vezes, à subcontratação de empresas que aos poucos vão tomando áreas fulcrais: papelaria, reprografia ou até a cantina. Estas empresas acabam por não se reger pelos mesmos princípios e leis que a educação, pelo que os preços praticados e a qualidade dos serviços estão geralmente longe do que seria de esperar.

Resta apenas uma opção para contornar as falhas de financiamento: as taxas. A burocracia aumenta e com ela aumentam as taxas e pagamentos por todo o tipo de serviço, papel, certidão, transferência… Coisas tão simples como o programa de uma disciplina, que deveria ser de livre acesso a todos os alunos, são pagos em várias faculdades. Um pedido de equivalências, por acumulação, torna-se incomportável. Cadeiras extra são pagas na inscrição e pagas de novo para constarem no diploma. Todo o papel tem o seu preço.

Como resultado, o que o estudante que atingiu com o seu esforço o final desta longa maratona vê, muitas vezes, o acesso à meta negado por motivos financeiros. Ao olhar em frente não vê uma vitória: vê uma barreira de burocracia, problemas económicos e para quê? Se todo o esforço foi seu, se os gastos foram seus e se as condições teimam em não aparecer…

Aprendeu para quem?

Por tudo isto é necessário fazer contas e repensar distribuições. Quais as necessidades dos estudantes? Quais as necessidades dos docentes e discentes? Há que listar o que é necessário e expor as situações, pois apenas de dentro se pode ver a real situação do ensino superior.

 


Imagem: ThespyglassLiverpool Students Walkout – 24th November 2010.

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