De mãos dadas

Sandra Cunha

É comum a ideia de que a opressão das mulheres pelos homens é apenas um produto de uma cultura determinada pelas diferenças biológicas entre sexos. Essa visão ignora a dimensão histórica da luta feminista e a sua ligação à luta de classes.

A luta feminista teve e continua a ter um papel fundamental nos avanços civilizacionais alcançados contra inegáveis atropelos aos direitos das mulheres como a violência doméstica, o assédio sexual, a violação ou o ataque à capacidade de autodeterminação das mulheres quanto ao seu próprio corpo e saúde reprodutiva. São lutas que valem por si próprias, não são subordinadas, mas não esgotam a luta feminista e o seu papel na transformação social.

Outras dimensões da luta feminista têm vindo a ser ocultadas. Grande parte dos discursos feministas atuais que advogam pela igualdade entre homens e mulheres fazem-no tendo por moldura um sistema capitalista global e modernizado. Espera-se que as mulheres tenham igual direito ao empreendedorismo, à meritocracia, à progressão na carreira nos mesmos termos e condições que os homens, ignorando-se, ou relegando para segundo plano, um sistema económico que promove salários baixos, precariedade e o crescimento da pobreza.

Enquanto o trabalho se basear na exploração de umas pessoas pelas outras, a emancipação das mulheres (tal como acontece com os homens) será sempre uma pseudo emancipação. Mas a situação das mulheres agrava-se: soma-se à exploração os mecanismos patriarcais. À maioria das mulheres são concedidos os trabalhos nos sectores mais desqualificados, com mais baixos salários e cargas horárias mais pesadas. E soma-se a esta exploração mais trabalho não pago, o trabalho doméstico, que continua a ser maioritariamente feminino. São elas que continuam a assegurar a maior parte dos cuidados com a casa e a família. A organização social baseada na dominação patriarcal serve os interesses e a manutenção do status quo do sistema capitalista porque permite que quem está no poder continue no poder.

Pensar o feminismo como acima da sociedade de classes, das discriminações raciais ou de identidades sexuais e de género, e não perceber que a emancipação de algumas mulheres, sempre uma minoria, ocorre no seio e segundo as regras do próprio sistema que promove a opressão é desvirtuar a natureza do feminismo enquanto movimento de luta contra todas as formas de discriminação e opressão.

Existem várias correntes feministas e é necessário o diálogo e a ação conjunta entre estas. Esse diálogo implica assumir as diferenças: um feminismo que seja consequente em toda a linha, que não deixa nenhuma mulher para trás, anda de mãos dadas com a luta coletiva da classe trabalhadora. E se não assumir essa causa como parte integrante da luta feminista dificilmente conduzirá a uma efetiva igualdade entre homens e mulheres.

 


 

Imagem: Toban B. – Feminism versus G20.

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